Tem coisas que sei que irão acontecer pela última vez.
É como se fosse um sentimento de saudade antecipado, que não pede licença e muito menos chega com aviso. Ele vem de repente, como um abacate caindo a milímetros da sua cabeça apenas para lembrar que está ali e que o mundo não gira ao seu redor.
Já perceberam que amo falar sobre abacates, não é?
Às vezes são últimas vezes temporárias, que parecem definitivas pelo intervalo de tempo absurdo entre uma e outra. O abraço no aeroporto em alguém que vai morar longe. O café com aquela amiga que só volta para a cidade no fim do ano que vem, se voltar. A gente sabe que vai ter outra vez, mas sabe também que, quando ela chegar, ninguém ali vai ser exatamente a mesma pessoa.
E tem as outras. As definitivas mesmo.
A última vez que a gente fecha a porta de uma casa que foi nossa. A última vez que passa por uma rua que fazia parte do caminho de todo dia. A última conversa com alguém que a gente nem desconfia que é a última, e essas são as piores, porque só ganham nome depois.
O engraçado é que, quando percebo que estou vivendo uma última vez, fico meio desajeitada. Quero prestar atenção em tudo, guardar o cheiro, a luz, o barulho de fundo, e quanto mais tento guardar, menos consigo estar ali de verdade. Parece que a saudade chega antes da despedida e senta na cadeira do lado, roubando um pedacinho do momento.
Tenho tentado fazer as pazes com isso justamente porque não dá para viver tudo como se fosse a última vez. Seria exaustivo e, sinceramente, dramático demais até para mim. Mas dá para, de vez em quando, deixar o celular no bolso, demorar um pouco mais no abraço, aceitar o segundo pedaço de bolo.
Então, se um abacate cair perto de você essa semana, olha para cima. Talvez seja a vida pedindo atenção.
Ou talvez seja só um abacate mesmo. Aí vira guacamole.
