Madalena estava mudando por dentro, e por fora também. As rugas agora pareciam leitos de rios sob sua pele. O andar, já era complicado. Até mesmo pensar envolvia cansaço. Ora, o brilho que havia em si, palpável onde chegasse e destaque entre os familiares e amigos se perdeu ao longo dos anos. Até mesmo seus pequenos netos (que já nem eram tão pequenos assim), percebiam a seriedade que a encontrava.
A vontade de viver tinha se exaurido. Os dias eram contados de sua cama, na frente de uma televisão e o café do marido sendo trazido. Não via mais graça em nada: se antes era a primeira a topar uma aventura, agora não tinha mais sequer vontade de visitar os familiares.
Todos estavam vivendo suas vidas, e ela já não era mais a protagonista da família. Estavam aprendendo a viver, mas ela já tinha aprendido, e por isso, nada mais tinha graça. A descoberta do jovem amor (ela amou muito), aprender a criar filhos (já tinha criado os seus, e muito bem), até mesmo seu hobbie de escrever cartas foi tirado dela pelos tremores que interferiam na firmeza de suas mãos.
Sentia o final da vida se aproximando. De seus sonhos que não foram alcançados ficando para trás e escoando por dentre seus dedos. Paris, ficou só na imaginação e nas memórias compartilhadas de outros. Espanha, nos sonhos onde caminhava descalça pelos ladrinhos.
O olhar vítreo do tempo se esgotando consumia sua alma e seus pensamentos, e por um instante, não conseguia mais sequer pensar em mais nada além de si. De sua alma que apesar de não estar inquieta, estava cambaleante. Estava neutra e opaca.
Ah, Madalena! Se você percebesse que o Eterno está logo ali, o tempo que escoa por entre seus dedos não seria pesado. Querida, o brilho dos homens é passageiro, mas a alegria de Cristo é eterna!
Ah, Madalena! Que você possa ser alcançada pela alegria da Salvação!
