Escrever é, antes de tudo, um exercício de paciência e silêncio. É como sentar à beira de um cais interno, com os pés suspensos sobre águas turvas, e lançar a linha sem saber o que repousa no fundo. A escrita tem essa natureza de “pescaria”: buscamos fisgar pensamentos que nadam apressados, formas prateadas que brilham por um segundo antes de mergulharem na escuridão do que ainda não foi dito.
Mas a linha pesa. E o desafio não está no esforço do braço, mas no frio que sobe pela espinha quando sentimos o puxão.
O medo, muitas vezes, não é de não encontrar nada. É exatamente o oposto: é o pavor de reconhecer o que subiu à superfície. Quando as palavras finalmente se deitam no papel, elas deixam de ser vultos abstratos para se tornarem espelhos.
Olhar para o que escrevemos é um ato de coragem crua; é encarar nossas próprias arestas, as partes de nós que guardamos em gavetas trancadas, o cheiro de mofo de memórias que não queríamos arejar. É ver a si mesma sem o filtro da delicadeza social, sem a maquiagem das conveniências.
No entanto, o papel aceita o disfarce. Existe uma certa liberdade em poder vestir a pele de um estranho. Podemos “mascarar” uma dor que é nossa no corpo de uma personagem que caminha por ruas que nunca pisamos. Podemos emprestar nossos olhos para alguém que vive no silêncio de uma manhã de inverno em outra cidade. É um jogo de luz e sombra: revelamos a nossa verdade enquanto nos escondemos atrás de uma cortina de ficção.
E acho que a magia do leitor mora justamente aí.
Ele percorre as linhas sentindo o cheiro do café que descrevemos, ou o toque áspero de um lençol antigo, sem saber se aquela melancolia pertence a quem escreve, a um vizinho ou a um fantasma inventado.
O leitor não busca o registro civil do autor; ele busca o eco de si mesmo.
No fim, a autoria se dissolve. Não importa mais quem segurava a vara de pescar. O que importa é que aquela verdade, antes submersa, agora descansa no colo de quem lê, fazendo sentido, trazendo abrigo, e provando que, no fundo, nunca estivemos pescando sozinhos.
