(Norvald, véspera da queda)
A névoa era um véu de leite derramado sobre os campos, e Aeryn desceu por ele como quem entra em um rio sagrado. Seus pés descalços conheciam o caminho de pedra, cada contorno, cada imperfeição lisa. O frio da madrugada era uma carícia antiga, um arrepio que não assustava, mas despertava. Subia por suas pernas e se aninhava em seu peito, um lembrete de que estava viva, de que sentia.
O dia ainda hesitava, recolhido atrás das montanhas, mas já enviava seus mensageiros de luz, pinceladas tímidas de ouro e lavanda nas bordas de um céu que despertava devagar. Norvald sempre acordava assim: em silêncio, com um respeito quase palpável pelo sono do mundo.
Ela amava esse interlúdio. Esse hiato suspenso entre o último suspiro da noite e o primeiro inspiro da manhã. Havia uma santidade nesse tempo, uma quietude que parecia guardar todos os segredos do universo. Era como se o mundo, por um instante, prendesse a respiração, e nesse vácuo, tudo, absolutamente tudo, fosse possível. As possibilidades flutuavam no ar úmido como sementes de dente-de-leão, esperando um sopro para se tornarem destino.
Os galhos dos freixos ancestrais, pesados de orvalho, inclinavam-se em uma reverência silenciosa à sua passagem. O som de seus pés na pedra era o único ritmo, uma pulsação suave contra o silêncio. Os pássaros ainda guardavam seus cantos, como se esperassem uma permissão do sol.
Aeryn parou junto ao poço do templo, uma boca de pedra escura e úmida que guardava a água mais pura da vila, inclinando-se sobre a borda encarou a estranha familiar que a olhava de volta. A água tremia, distorcendo a imagem: cabelos de um castanho escuro, soltos como fios de noite, olhos de um âmbar que guardava o cansaço de muitas vigílias. Um rosto que ainda trazia os traços suaves da juventude, mas cujos contornos já haviam sido redesenhados pelo peso invisível das ausências.
“Reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro…”
A frase emergiu de dentro dela, com a voz e o cheiro de sua avó. Cheiro de camomila e terra seca. Era como uma oração antiga e, ao mesmo tempo, como uma ordem gentil, quase uma súplica. Um legado. Mas havia dias — e aquele era um deles — em que sorrir não era um ato de vontade, mas de fé cega. Uma aposta no escuro.
De longe, um som novo começou a se erguer, rompendo a quietude. A cadência dos martelos na bigorna, o coração de ferro de Norvald começando a bater: Os ferreiros moldavam o metal com uma dança de fogo e força, e o cheiro acre da forja se entrelaçava no ar com a fragrância morna e doce do pão fresco, uma promessa de sustento vinda da padaria de dona Elda.
Logo, as primeiras crianças, pés descalços e almas barulhentas, riscaram as ruas de terra com suas risadas, perseguindo galinhas e sonhos.
Tudo era tão insuportavelmente normal, tão pulsante, tão vivo, tão infinitamente precioso que a beleza chegava a doer, como uma luz forte demais em olhos que se acostumaram à penumbra.
Suspirou fundo, como se estivesse sendo atingida por um soco.
Aeryn deu as costas ao poço e começou a subir o morro atrás do templo. Ali, o trigo crescia alto, e o vento criava ondas douradas que se moviam com a lentidão de um mar em sonho. Este era o seu santuário. Ficar ali, no alto, e observar o mundo que amava respirar, sem saber que era amado em cada detalhe.
Lá embaixo, entre as casas de pedra e madeira de telhados cobertos de musgo, vivia um povo que aprendera a acreditar na luz mesmo quando o céu estava nublado. Havia música aos domingos, canções que falavam de colheitas e de estrelas. Havia abraços que duravam o tempo de uma prece e silêncios que diziam mais do que qualquer palavra. Norvald não era grandiosa. Não tinha muralhas imponentes nem estandartes de ouro.
Mas era lar. E a palavra lar tinha o peso e a leveza de tudo o que importava.
— Vai criar raízes de gelo nos pés, menina — resmungou uma voz que era tão familiar quanto o vento.
Um sorriso brotou nos lábios de Aeryn antes mesmo que ela se virasse. A avó aproximava-se, apoiada em seu cajado de bétula, torto e liso pelo tempo. O manto de lã escura cobria-lhe os ombros finos, e os olhos, embora estreitos pelas rugas, eram atentos como os de um falcão.
— Estou tentando sentir o chão — respondeu Aeryn, a voz pouco mais que um sussurro. Mal sabia a avó que era para saber se ele ainda estava firme sob si.
A avó parou ao seu lado, o olhar fixo no horizonte, onde a vila se aninhava.
— O chão sempre treme um pouco antes de se romper. O perigo é que a maioria das pessoas só percebe o tremor quando já está caindo.
As duas ficaram em silêncio, um silêncio compartilhado, tecido de anos de compreensão mútua. Aeryn sabia, com a certeza que nascia no fundo da alma, que a avó não falava da terra, mesmo que não tivesse instigado aquela conversa que se tornava cada vez mais melancólica.
— Sonhou com ele de novo? — A pergunta da velha foi suave, lançada ao vento para que não pesasse demais.
Aeryn assentiu, um movimento lento, quase imperceptível.
— Sim. Mas desta vez… foi diferente. Ele não estava ferido. Não havia sangue nem sombra em seus olhos. Ele estava apenas… sorrindo.
— E o que você acha que isso significa?
— Que talvez minha alma esteja cansada de sofrer e começou a mentir para me consolar. – A avó finalmente virou o rosto para ela. Havia em seus olhos uma profundidade que parecia conter todas as estações do ano. Eles não viam apenas Aeryn; viam as memórias, os medos e as esperanças que viviam dentro dela. — Ou talvez… seja a dor se tonando minha principal companhia. Vai saber.
Aeryn fechou os olhos, deixando que a brisa fria secasse uma lágrima que ela não percebera ter caído.
Explicar a ausência de Alden era como tentar descrever a cor do vento: Era um vazio que tinha forma, peso e voz. Mais difícil ainda era conviver com o fantasma teimoso da esperança.
Ele partira para lutar — como tantos outros filhos e filhas da Casa Solaryn, cuja linhagem se dizia nascida do próprio sol — e a guerra o engolira. Sem corpo para enterrar, sem uma última mensagem para reler. Apenas o eco persistente do que ele fora, ressoando nos cantos silenciosos da casa e do coração dela.
O irmão mais velho que a ensinara a segurar uma espada de treino não como uma arma, mas como uma extensão da própria vontade, ensinando-a que a verdadeira força não estava em ferir, mas em proteger.
O menino que dividia a única maçã em duas metades perfeitas, enquanto se sentavam no campo de trigo, e dizia, com a sabedoria que não pertencia à sua idade, que a luz não estava nos grandes feitos heroicos, mas nas escolhas pequenas e gentis de cada dia.
O jovem guerreiro que, na manhã de sua partida, segurou seu rosto entre as mãos e prometeu voltar. Ele prometeu.
E não voltou.
— Há coisas que a gente enterra sem precisar de um caixão — murmurou Aeryn, mais para si mesma do que para a avó. — Mas elas continuam vivas debaixo da terra. Como raízes teimosas demais que ninguém vê, mas que continuam a crescer, buscando uma luz que talvez não exista mais.
A mão da avó, fina e enrugada, mas surpreendentemente forte, pousou em seu ombro.
— Porque o que é feito de luz, Aeryn, nunca morre de verdade. Apenas muda de lugar. Às vezes, se esconde dentro de nós, esperando que a gente se lembre de como procurar.
Naquele instante, o sino do templo soou, sua voz de bronze cortando a quietude da colina com três batidas longas e ressonantes. Era o chamado para a primeira prece do dia — o “despertar da alma”, como ensinavam os mais velhos. Um convite para alinhar o coração com o nascer do sol.
“Sua alma nunca esteve tão inerte”, pensou consigo mesma.
Aeryn desceu a colina em passos lentos, os olhos ainda perdidos no horizonte distante, na linha onde o céu e a terra se encontravam. Mas, ao cruzar o portão de pedra que marcava a entrada da vila, sentiu-o. Pela primeira vez em semanas, talvez meses. Um arrepio súbito e frio na nuca, completamente diferente do frio da manhã. Era um arrepio que vinha de dentro, um alarme silencioso. Como se algo na tessitura do ar tivesse se alterado.
Era estranho, como se o chão, apesar de firme sob seus pés, tivesse, de repente, parado de respirar.
No centro da vila, os aldeões já se reuniam na pequena praça, banhados pela luz cada vez mais clara da manhã. Suas figuras projetavam sombras longas e suaves no chão de terra batida. Alguns carregavam cestas com as primeiras frutas da estação, outros traziam ferramentas de trabalho ou livros de preces com capas de couro puído. As conversas eram baixas, um murmúrio coletivo que soava como o zumbido de abelhas. Cumprimentavam-se com a mão espalmada sobre o peito, o gesto ancestral da Casa Solaryn. “A luz em mim reconhece e saúda a luz em você.”
Aeryn respondeu ao gesto automaticamente, com o respeito que lhe fora ensinado desde o berço, mas seu coração era um pássaro assustado em uma gaiola de costelas.
Havia algo à espreita. E não estava nos bosques escuros que cercavam Norvald, nem nas montanhas distantes. Estava ali, no meio deles, invisível. Uma inquietação que não vinha de fora, mas que brotava do próprio âmago das coisas.
Ela caminhou até o altar de pedra no centro da praça, onde os anciãos se preparavam para iniciar a prece. Seus dedos traçaram o símbolo gravado na pedra fria — o sol de oito pontas, representando os oito pilares da vida: força, sabedoria, compaixão, coragem, humildade, justiça, esperança e sacrifício. Ela fechou os olhos por um instante, a pedra gelada sob sua palma.
“Reveste-se de força e dignidade.” A voz da avó.
“Sorri diante do futuro.” A exigência do legado.
E, naquele momento, Aeryn sorriu. Mas não era um sorriso de alegria, nem de esperança. Não era pelo que via, nem pelo que sentia. Foi um sorriso de pura decisão. Um ato de rebeldia silenciosa.
O sorriso de quem, mesmo perdido na escuridão iminente, escolhe, por teimosia, por amor, por memória, não esquecer o caminho de volta para a luz.
O dia em Norvald desdobrou-se como uma tapeçaria antiga, mas com fios soltos, cores ligeiramente desbotadas, padrões que pareciam, de perto, sutilmente errados. Eram detalhes que a maioria, imersa na rotina de suas vidas, não notaria. Mas Aeryn, com sua sensibilidade aguçada pela dor e pela espera, sempre percebia.
Primeiro, foi o silêncio das árvores. Não era a quietude pacífica da madrugada. Era um silêncio denso, pesado, como se as folhas dos velhos carvalhos tivessem decidido murchar em seus galhos, recusando-se a dançar com o vento. O
s pássaros, mesmo os mais atrevidos, mantinham-se distantes da praça central. Aquele zumbido constante da vida — o chilrear, o farfalhar das folhas, o zunido dos insetos — parecia ter sido abafado por algo invisível, como se o próprio ar tivesse se tornado espesso demais para o som viajar.
Depois, vieram os corvos. Três deles. Pousaram sobre a cruz de ferro do sino do templo, silhuetas de obsidiana contra o céu pálido. E não grasnavam. Apenas observavam, imóveis, seus olhos negros e brilhantes como poços de piche, perscrutando a vida da vila lá embaixo. Era raro ver corvos em Norvald. Mais raro ainda vê-los juntos. E completamente inédito, vê-los tão quietos. Eram sentinelas de um mau presságio que ainda não tinha nome.
Aeryn caminhava pelas vielas estreitas, levando um cesto de ervas secas para a avó, quando notou a terceira anomalia, a mais perturbadora de todas: A sombra da torre do templo, projetada no chão de terra, ela estava errada. Não seguia o ângulo do sol, que agora subia alto no céu. A sombra curvava-se sutilmente para o leste, longa e distorcida, como se tentasse fugir de uma luz invisível que vinha do oeste. Ela parou no meio do caminho, o cesto esquecido em suas mãos, olhando para aquela mancha escura e antinatural no chão. Um aperto gelado se formou em seu estômago, um nó de puro instinto.
O ferreiro, cujo assobio de canções antigas era parte da paisagem sonora da vila, hoje batia o martelo em um ritmo arrítmico, hesitante. A fumaça que saía da chaminé da padaria era mais escura, mais pesada que o normal. O choro de um bebê, vindo de uma das casas, persistia há horas, um lamento agudo e inconsolável que a mãe parecia incapaz de acalmar. E os rostos dos anciãos, sentados nos bancos de pedra sob o sol, estavam tensos. Seus olhos não se encontravam; miravam o nada, os lábios apertados, como se sentissem em seus ossos velhos aquilo que não ousavam nomear.
“A escuridão não chega como uma tempestade, invadindo tudo de uma vez,” dissera-lhe uma vez o velho mestre do templo, um homem cujos olhos pareciam ter lido cada página do mundo. “Ela chega como um sussurro. Infiltra-se nas pequenas rachaduras. Faz o mundo duvidar de sua própria luz.”
Aeryn lembrou-se dessas palavras ao empurrar a porta de madeira de sua casa. O cheiro familiar de ervas e lenha queimada a acolheu, mas não a confortou. A avó estava sentada em sua cadeira de balanço junto à janela, os olhos fechados, os dedos finos e nodosos entrelaçados sobre o colo. A cadeira estava imóvel.
— As cinzas estão chegando antes do fogo — disse a velha, sem abrir os olhos. Sua voz era calma, mas carregada de um peso definitivo. — E aqueles que têm olhos que ainda se lembram da luz são os primeiros a senti-las no ar.
Aeryn não respondeu. Não havia o que dizer. Colocou o cesto sobre a mesa e foi para junto da janela, olhando para a mesma vila que observara do alto da colina. Mas agora, a beleza estava coberta por um filtro invisível de apreensão. Ela sentia também.
A pequena chama de luz que sempre guardara dentro de si, começava a vacilar.
Como a chama de uma vela que treme e se inclina, não porque está se apagando, mas porque sente a corrente de ar de uma porta que acabou de se abrir em algum lugar da casa.
Havia algo se aproximando. Algo que não podia ser visto com os olhos, mas que já atravessava o mundo como uma fissura silenciosa atravessa uma vidraça. Inevitável. Irreversível.
O céu daquela noite teria estrelas, sem dúvida. Mas, pela primeira vez em sua vida, Aeryn suspeitava que teria de acendê-las uma a uma, com as próprias mãos.
