Já era noite quando aquela sensação estranha começou a se espalhar em sua garganta, rastejando como fumaça espessa, silenciosa e inevitável. Era como se um nó invisível se formasse ali, apertando devagar, de dentro para fora, apesar de todos os seus protestos internos, apesar dos “agora não” repetidos entre os dentes cerrados. Sentia-se como um pato se afogando — que ironia cruel, não? Um animal que deveria nadar, que nasceu para flutuar, sendo arrastado para o fundo por algo que não sabia nomear.
Não havia começo, meio ou fim discerníveis. Era uma onda densa, sem origem nem destino, apenas presente. Estava ali o tempo todo, rondando, espreitando, e agora tomava forma. E com ela, a culpa: A velha e conhecida culpa por se encontrar outra vez naquela espiral, por estar de novo naquele lugar sombrio, emocionalmente exaurido, como se tivesse falhado em alguma promessa silenciosa de estar bem.
Diferente das primeiras vezes, quando o medo era do desconhecido, agora ela tremia diante do que já conhecia tão bem.
O pavor não vinha da surpresa, mas da memória.
Sabia o que viria, o que se perderia, o que pesaria no peito. Era como se os próprios átrios do coração se encharcassem, inundados por um choro incontrolável: não só o choro, mas também a raiva, a vergonha, a impotência.
Todos os sentimentos acumulados, amontoados e esquecidos, despertavam em coro.
Era como se estivesse se afogando dentro de si mesma. E o mais assustador era perceber que já sabia nadar — só não sabia mais onde era a superfície.
