O vento soprava pelo campo de flores silvestres, trazendo consigo o perfume doce das margaridas e lavandas, um lembrete da passagem do tempo. O sol poente pintava o céu com tons de laranja e dourado, lançando longas sombras sobre o gramado macio.

Era o tipo de cena que deveria ser eterna, o tipo de momento que deveria se repetir para sempre, intocado pela passagem dos dias.

Mas Josh sabia que não era assim.

Ele estava ali, encostado contra o tronco do velho carvalho no topo da colina, o único ponto de altura naquela vastidão de cores e vida. Seus dedos apertavam um pedaço de papel dentro do bolso de sua jaqueta, dobrado tantas vezes que as marcas já haviam se tornado permanentes. A carta queimava contra sua pele, como se cada palavra escrita nela sussurrasse um segredo que ele não queria ouvir. Ele desconfiava que aquelas palavras poderiam mudar não apenas o destino de ambos, mas também a essência de cada olhar que trocavam.

Ema caminhava devagar entre as flores, os dedos nas pétalas, a expressão distante, como se sua mente estivesse a quilômetros dali. Josh sabia que ela vinha para cá quando queria pensar, quando precisava de respostas que ninguém mais poderia lhe dar. Como um farol à deriva, Josh se sentia atraído por ela, e o entrelaçar dos seus destinos parecia cada vez mais inevitável.

Ele sabia porque a conhecia melhor do que qualquer um. Conhecia seus sonhos, seus medos, e todas as nuances que a tornavam única. E porque aquela carta que agora pesava como uma âncora em seu bolso poderia mudar tudo entre eles.

A visão daquelas flores a cercando, contrastadas com a sombra do que poderia ser, dilacerava seu coração.

Ele deveria ter entregado. Mas não entregou. E nunca entregaria.

Ema se aproximou e sentou-se ao lado dele, deixando escapar um suspiro cansado. Como se o dia tivesse drenado sua energia, como se houvesse algo dentro dela que a incomodava. Aquela sensação entre eles era palpável, uma linha tênue que poderia se romper a qualquer momento.

— Você sumiu hoje — comentou, sem olhá-lo.

Josh desviou os olhos para o horizonte, onde o sol afundava lentamente atrás das colinas distantes. A presença dela ao seu lado era um lembrete constante do que ele escondia.

— Precisava pensar.

— Você pensa demais.

Ele soltou um riso baixo, sem humor. A ironia da sua resposta não passou despercebida.

— Alguém tem que fazer isso.

Ema não riu. Apenas abraçou os joelhos, repousando o queixo sobre eles, mergulhando em seus próprios pensamentos, distante como uma estrela em um céu noturno. A cada segundo que passava, Josh sentia o peso do silêncio entre eles, um abismo maior do que a colina que ocupavam, mas não o quebraria. Não ainda.

Porque o que poderia dizer? Que ele segurava um pedaço de papel que poderia mudar o destino dela? Que poderia destruir essa calma frágil que compartilhavam naquele momento? Cada lágrima não derramada e cada palavra sufocada se tornavam um fardo insuportável.

Não. Ele jamais poderia dizer isso.

Ema pegou uma margarida ao seu lado e começou a arrancar as pétalas distraidamente, um ritual que parecia tão mundano, mas que carregava um significado profundo.

— Às vezes, eu acho que há coisas que deveriam ter acontecido — disse ela, quase para si mesma. — Mas, por algum motivo, não aconteceram. Como se o universo tivesse cometido um erro.

Josh sentiu um aperto no peito. O eco daquelas palavras reverberava dentro dele como um sino em um dia silencioso.

Ela estava falando da carta?

Não podia estar. Ela nem sabia que existia. Mas ainda assim, a sensação de que Ema percebia o que ele fizera — mesmo sem saber conscientemente — foi um soco no estômago.

Ele poderia fazer a coisa certa agora. Poderia alcançar o bolso, puxar o papel amassado e entregá-lo a ela. Poderia assistir enquanto ela o abria, lia as palavras, sentia seu mundo mudar e, ainda assim, um frio na barriga o impedia.

Mas… e se esse mundo mudasse de um jeito que ele não pudesse suportar? E se, ao final de tudo, Ema nunca mais olhasse para ele do mesmo jeito? Seus dedos apertaram o papel, como se o simples contato pudesse segurá-la ali, como se pudesse segurá-los no tempo para sempre.

O vento bagunçou os cabelos de Ema quando ela se virou para ele, seus olhos refletindo uma ingenuidade que Josh sentia estar prestes a ser destruída.

— Você já sentiu que está esperando por algo que nunca chega?

Josh segurou a respiração porque cada palavra dela era uma lâmina, cortando a pele da sua determinação. Ele fechou os olhos, engolindo a resposta que queria dar. Porque sim. Ele esperava por algo.

Esperava que Ema olhasse para ele e visse mais do que apenas o amigo de infância. Esperava que um dia ela percebesse que ele sempre esteve ali, esperando-a, amando-a em silêncio, segurando uma carta que não deveria pertencer a ele e que a cada instante fazia o peso em seu bolso se tornar cada vez mais insuportável.

Esperava, acima de tudo, que a situação fizesse uma escolha por ele. Mas o destino já tinha escolhido. E era ele quem segurava a carta. Era ele quem a mantinha longe dela. Era ele quem escolhera um futuro onde Ema nunca saberia.

Onde ela nunca saberia que alguém, um dia, escreveu para ela palavras que poderiam mudar tudo. Onde ela nunca saberia que esse alguém não era ele.

O tempo continuaria seguindo, as flores continuariam balançando ao vento, e a carta permaneceria no bolso dele, onde ninguém jamais a encontraria. Naquela quietude, enquanto o crepúsculo caía e envolvia tudo em sua beleza melancólica, uma parte de Josh desejava que as coisas fossem diferentes, que a coragem pudesse superar o medo e, acima de tudo, que Ema soubesse.

Ema nunca soube.

Nunca saberia.

Porque ele nunca entregou.

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