A gente se perde entre as caixas da mudança e o cheiro de café novo na cozinha da vida adulta. Enquanto aprendo a conjugar o “nós” da minha nova família, deixo de acompanhar, sem querer, as entrelinhas das suas mudanças.

Eu parti quando você ainda cheirava a infância e sabão de banho. E, num intervalo de respiração que a memória não soube medir, o celular vibra com uma pergunta que me desloca o chão: “Você tem um saltinho para me emprestar?”.

O “saltinho” não era apenas um sapato; era o anúncio de que o chão onde ela pisa agora exige outra postura.

É um estalo seco. O som abafado das suas meias correndo pelo corredor da nossa casa foi substituído, silenciosamente, pelo peso decidido de quem agora quer ganhar altura.

Houve um tempo em que minhas mãos, marcadas de farinha, partiam o pedaço maior do bolo de chocolate para você. Hoje, o perfume do cacau atravessa a tela em uma foto; é você quem assa o próprio conforto agora, e é você quem escolhe com quem partilhá-lo.

Às vezes, ao abrir uma rede social, sinto um deslocamento temporal. As fotos que você posta têm o mesmo enquadramento, a mesma luz âmbar de fim de tarde que banhava o meu rosto anos atrás, no mesmo quarto. É o mesmo palco, mas a atriz mudou. Onde antes havia o caos colorido das bonecas (aquelas confidentes de plástico que sabiam de todos os nossos segredos), agora há o burburinho das vozes das amigas, os planos sussurrados e os risos que já não me pertencem por inteiro.

Dizem que você é uma atleta agora. Que tem fôlego, força e metas. Mas, para mim, sempre terá aquela gravidade vacilante dos primeiros passos. Meus braços guardam a memória tátil de serem o um dos portos seguros, quando o mundo era grande demais e as palavras ainda eram sílabas tropeçadas.

Você foi o meu primeiro ensaio de amor incondicional e, de alguma forma, meu primeiro bebê. E dói, de um jeito manso e bonito, perceber que agora caminha com as próprias pernas, em passos que eu já não preciso mais guiar, mas que continuarei a admirar de longe, com o coração sempre pronto para ser o seu cais.

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