O dia deságua, mais uma vez, em um acúmulo de urgências que não pedem licença. São pequenos nós: alguns desatados com pressa, outros deixados sobre a mesa para que o amanhã os resolva. Entre as paredes de vidro da empresa, encarei três reuniões; em duas delas, o silêncio de um e-mail bem pontuado teria sido mais generoso com o tempo.

Os prazos não caminham, eles correm, e eu acabei por decorar o ritmo desses dias frenéticos, como quem aprende a respirar em meio a uma ventania.

Às vezes, entre um clique e outro, a imagem da menina que vendia limonada na calçada atravessa a tela do monitor: Ela usava sapatos grandes demais e brincava de ser séria. Agora, os sapatos servem, e a seriedade é um uniforme que conduzo entre clientes e decisões que, dizem, moldam destinos. Se aquela menina me visse hoje, sentiria o peito inflar de orgulho, mas logo viria o susto, aquele arregalar de olhos genuíno: como assim não posso mais faltar à aula para mergulhar em desenhos animados com um copo de achocolatado morno entre as mãos?

A vida adulta tem essa maneira de empurrar o lúdico para as frestas. A doçura agora é um artigo de luxo, encaixada nos vãos da agenda.

No fim do expediente, quando os documentos são salvos e as responsabilidades (essas que na teoria possuem o peso de um abismo) perdem a força, o que sobra é apenas o essencial, ou quase isso.

O que sobra é a garota que busca o brilho de uma maquiagem nova, que se perde em sinopses de romances e faz listas de livros que prometem ser colo.

O ritual de retorno começa no estalar do teclado que se apaga e termina no silêncio do apartamento: O ar-condicionado tenta transformar o quarto em um refúgio de inverno particular, me obrigando a sumir sob camadas de mantas pesadas. Há um delivery de sushi a caminho e a promessa de um banho que leve embora o cansaço do metal e do asfalto.

Debruçada sobre um escalda-pés que planejei por meses (um carinho adiado pela pressa), sinto a água quente abraçar a pele. Escovo os cabelos úmidos com uma calma que não tive o dia todo, ouvindo o som das cerdas. O que vejo no espelho não é a executiva, nem a estratégia, nem o prazo.

Sou apenas eu. Uma garota tateando o mundo, aprendendo a existir pela primeira vez.

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