Tenho um pacto antigo e, quase sempre, mal resolvido com as segundas-feiras. Na teoria (sim, aquela que desenho no silêncio do domingo à noite) elas chegam com cheiro de café novo e o frescor de um caderno ainda sem rasuras. Eu as imagino como uma luz branca e limpa, uma oportunidade de organizar os afetos e encarar a semana com uma coragem arquitetada, quase bonita.

Mas a prática tem um peso diferente.

Desde que me entendo por gente, minhas segundas-feiras não nascem; elas pesam. Existe uma melancolia que escorre do teto junto com a primeira luz da manhã, transformando o “recomeço” em uma espécie de apatia densa, como se o ar estivesse subitamente mais grosso. É uma antipatia gratuita pelo despertar, um ruído surdo que insiste em dizer que o mundo está girando rápido demais para o meu tempo interno.

Preciso me policiar. Visto uma máscara de normalidade, ajusto a postura para que o meu cansaço seja, no mínimo, aceitável aos olhos alheios.

É exaustivo fingir que a engrenagem não está rangendo.

O mais irônico é que o recomeço que tanto idealizo acaba ficando exilado no campo das ideias. Enquanto eu sonho com a ordem, o dia se desdobra em um caos miúdo: papéis que se perdem, palavras que não saem, o ritmo atropelado de uma vida que não espera a gente se sentir pronta.

As segundas-feiras que deveriam ser pontes acabam sendo muros.

Engraçado, né? Como a gente planeja a cura e acorda, mais uma vez, sentindo apenas a febre.

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