Existem  momentos bem específicos que parecem ser comum na vida da maioria das pessoas.

Acho que eles carregam algo mágico: nos une de alguma maneira, independente do núcleo, vivências, estações da vida…

Um desses pequenos rituais que me chamou atenção nos últimos dias.

São aquelas horas em que, depois de uma boa refeição com a rede de afetos, as louças ficam ali, intocáveis, na mesa.

Não há incômodo com aquele amontoado de pratos, copos, garfos marcados por vestígios de um banquete que já foi saboreado a, quem sabe, mais de uma hora atrás.

Muito pelo contrário: de repente, tocar naqueles peças sujas pode ser o anúncio de uma despedida de um momento em que todos, em um inconsciente coletivo, sabem que vão sentir saudade.

É como se, deixar as louças participarem das conversas, fosse uma aliança que liga o que já foi, com o que está acontecendo agora, e por isso, o que passou, não está tão longe assim.

Trabalhando uma vez em um restaurante que servia pratos feitos e seu objetivo era refeições rápidas, como garçonete, precisava ficar atenta a mesa dos clientes: assim que terminassem as refeições, com toda a gentileza, eu me oferecia para retirar a louça suja, assim o cliente ficaria “mais à vontade”. A verdade é que essa era uma tática que dizia nas entrelinhas: “ou consuma mais para continuar a conversa, ou libere a mesa para o próximo.”

De fato era o que acontecia e acontece na maioria dos restaurantes.

Quando saio com meu marido para um restaurante, a conversa se alonga e por mais que já estejamos satisfeitos, a mesa limpa é convite para pedirmos a sobremesa ou mais um drink, nem que seja pra dividir.
Ali saboreamos cada colherada com calma, nos despedindo dos instantes juntos, ao redor da mesa com comida boa e conversas que transbordam.

Essa teoria é tão verdadeira, que vi em um perfil que ensinava regras de etiquetas sociais, que o anfitrião jamais deveria recolher os pratos da mesa sem que alguém tenha solicitado, caso contrário, assim como nos restaurantes, era um convite para terminar o momento.

Esses fatos e sentimentos reforçam a ternura melancólica que venho sentindo nesses últimos dias ao ver as conversas fluírem sem a preocupação de limpar os rastros do que aconteceu.
Acho cada vez mais bonito, embora “ilógico”, ver louças sujas que parecem estar sendo ignoradas, mas na verdade, são mantidas quase como testemunhas de conversas que ainda estão sendo saboreadas, e de tão boas, ninguém quer que chegue ao fim.

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