Abro os olhos e o peso não está nos lençóis, mas no que vem antes deles. Antes mesmo do primeiro bocejo, minha mente já começou a tabular o inventário das faltas: o cargo que exige uma postura que ainda não me cabe, os próximos passos que parecem degraus de uma escada rolante que desce enquanto tento subir, a engenharia invisível e exaustiva de manter a vida, a minha e a dos que habitam comigo, minimamente nos eixos.

Acordo cansada de ser a arquiteta de cardápios que ninguém pediu, mas que todos esperam. Penso na logística de evitar o delivery, na lista de manutenções da casa que parece sussurrar das frestas das janelas e do rangido da porta. Antes de levantar, já sei o que o dia vai me cobrar e, com uma lucidez dolorida, já sei exatamente o que não terei forças para entregar.

No trabalho, o cenário é um espelho opaco. Serei engolida por uma lista de urgências batizadas por mãos alheias. É curioso como o mundo tenta nos convencer de que tudo é incêndio; se tudo arde ao mesmo tempo, a brasa perde o sentido.

Com isso, me dei conta que aprendi a amar o rastro do hábito. Gosto do conforto de saber que o café terá o mesmo gosto e que a xícara estará no mesmo lugar. Mas, às vezes, essa segurança é a própria cela. Me pergunto se minha busca por ordem não é, na verdade, um jeito de tentar silenciar o caos que mora aqui dentro.

Li, há pouco tempo, sobre uma personagem que flutuava pela vida, meio avoada, meio perdida. Invejei a leveza dela. Eu, por outro lado, caminho esperando o próximo imprevisto, como quem aguarda um trovão após o relâmpago.

Meus dias são banhados por essa luz de expectativa, uma claridade que arde nos olhos mas não ilumina o caminho. São nove da manhã. O gato ainda precisa da consulta que não agendei, os boletos descansam na mesa como lembretes da minha inadimplência com a vida prática.

Talvez blocos de tempo resolvessem? Ou talvez o tempo não queira ser bloqueado, mas sentido.

Levanto em um solavanco, um espasmo de coragem para enfrentar a cozinha, mesmo sem vontade. O cheiro do café começa a subir, tímido, e meus olhos encontram a cuca sobre o balcão. Há um brilho de açúcar cristalizado e o rastro denso do doce de leite escapando pelas bordas: Furo minha meta alimentar com a mesma resignação com que se aceita uma rendição. Um terço de pedaço. É pequeno, é doce, é macio. Sinto a textura da farofa de açúcar nos dedos e o gosto do caramelo me trazendo de volta, por um segundo, para o presente.

É um respiro em meio à névoa.

Percebo que passei tanto tempo sendo uma resolvedora de problemas que esqueci como é ser apenas alguém que vive os problemas: Como é pensar em um de cada vez?

Minha mente está tão cheia de planos e “comos” que o “ser” ficou soterrado.

Eu sou uma resolvedora de problemas? Sou. Mas, no silêncio da cozinha, enquanto o gosto do doce de leite ainda desce pela garganta, confesso para as paredes: eu preferiria ser, apenas por hoje, o problema que ninguém precisa consertar.

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