Hoje acordei e fiquei olhando a poeira dançando num raio de sol que atravessava a cortina. Eram dez da manhã de um sábado e, em vez de paz, senti um soco no estômago. Minha primeira reação não foi espreguiçar, mas tatear o criado-mudo em busca do celular, como se eu precisasse de um álibi para estar ali, parada. Como se o simples fato de respirar sem produzir nada fosse um crime que eu estivesse cometendo contra o tempo.
Parece que viramos do avesso. Ontem, ouvi uma amiga contar, entre um gole de café e outro, que não dormia mais de quatro horas por noite. Ela disse isso com um brilho estranho nos olhos, um orgulho torto, como quem exibe uma cicatriz de guerra. E eu a aplaudi. Nós nos aplaudimos por sermos inumanos. Criamos um altar para o esgotamento e chamamos isso de “sucesso”.
As consequências estão aqui, no silêncio da minha cozinha, onde o descanso não tem mais cheiro de lavanda, mas de ansiedade. Meus dias de folga se tornaram uma gincana exaustiva: preciso aprender cerâmica, ler aquele livro denso, organizar os armários, planejar a próxima viagem, “resolver a vida”.
E o pior: Se o café esfria na xícara enquanto eu olho para o nada, sinto que estou falhando. Existe algo de quase profano em não ter o que dizer quando alguém pergunta: “O que você tem feito?”.
Disseram-nos que ser alguém é ser requisitado. Antigamente, o status era o ócio com jardins largos, as tardes de leitura, o tempo que sobrava. Hoje, a joia que ostentamos é a agenda lotada e o semblante cansado. Se você dorme oito horas, parece que não é importante o suficiente; parece que o mundo não precisa de você tanto quanto precisa daquele que está à beira de um colapso.
E tudo isso, porque nos achamos mais importantes do que realmente somos.
No fundo, acho que essa nossa correria é um grito de socorro disfarçado de produtividade. Temos um medo pavoroso do silêncio, porque no silêncio a gente deixa de ser “útil” e passa a ser apenas gente.
E ser gente dói, cansa, exige pausa.
Fechei os olhos de novo e tentei ignorar a lista de tarefas que gritava dentro da minha cabeça, porque na realidade, o que eu precisava era o descanso da alma.
É difícil desaprender essa urgência.
Mas hoje, por alguns minutos, eu orei para que o que importante fosse apenas isso: estar viva o suficiente para sentir o peso da própria mão sobre o peito, sem precisar de uma justificativa para o próximo batimento, sabendo que não há nada que eu faça para que Cristo me ame mais do que já sou amada.
