Existe uma vertigem silenciosa nos nossos dias. Corremos, lemos, ouvimos podcasts e acumulamos certificados, mas raramente paramos para perguntar: para onde tudo isso está nos levando?

Ao abrir “Imersos em Pensamentos”, de Zena Hitz, fui despida da minha armadura de “leitora produtiva”. Minhas anotações, trêmulas nas margens, revelam o quanto esse livro tocou em uma ferida aberta. Zena, com a precisão cirúrgica de quem conhece a alma humana, nos força a uma autocrítica severa sobre o uso instrumental do intelecto (p. 45).

Fato é que temos o hábito completamente viciado de transformar tudo em moeda de troca: Estudamos para vencer debates, lemos para ostentar referências em jantares, aprendemos para garantir sucesso político ou financeiro.

Como anotei, com um certo amargor, muitas vezes “não se estuda porque é bom, mas visando um objetivo”. E aqui reside o perigo que Aristóteles e Platão já temiam: quando o conhecimento serve apenas ao ego, ele gera a alienação e a arrogância.

Quantas vezes não usei os livros como um muro para me separar dos outros, em vez de uma ponte para compreendê-los? A autocrítica que Hitz propõe é dolorosa: o estudo instrumental nos desumaniza, nos torna soberbos.

Mas há um antídoto. E ele exige uma mudança de postura radical.

Nas minhas notas sobre a “Vocação Intelectual”, destaquei o contraste entre a sugestão de Sertillanges (duas horas de tempo livre) e a de Arnold Bennett (meia hora de pensamento concentrado). A questão não é a cronometragem, mas a consagração do tempo.

Vivemos o que a autora chama de “trabalho frenético e interminável”. Estamos sempre ocupados, sempre respondendo, sempre reagindo. E o resultado dessa pressa, como transcrevi da página 57, é devastador: nos tornamos escravos de escravos. Servimos a um sistema que serve a outro, num ciclo onde ninguém é verdadeiramente livre para apenas pensar.

O livro defende o resgate do “inútil” — não como algo descartável, mas como algo quase sagrado, inerente à natureza humana, resgatando o conceito de fazer coisas que têm o fim em si mesmas.

Obviamente algumas coisas são meios para um fim, como por exemplo o café da manhã, que serve para aplacar a fome (instrumental), ao mesmo tempo que pode ser tanto um fim quanto um meio (aproveitando cada mordida do pão, se deleitando ao mesmo tempo que aplaca a fome)… Mas jogar cartas numa tarde chuvosa, montar um quebra-cabeça ou ler uma poesia difícil sem pressa… isso é feito pelo deleite da existência.

A “coluna vertebral” desta obra (p. 61) é a lembrança de que a contemplação é um bem humano saudável, valioso e digno. Ela é o nosso direito de nascença que vendemos por um prato de lentilhas, ou melhor, por um pouco mais de produtividade.

Saio desta leitura com menos certezas e mais silêncios.

O convite que deixo a vocês não é para “ler mais um livro”, mas para se examinarem: o que você tem feito apenas pela beleza de fazer? Quando foi a última vez que você permitiu que seu pensamento vagasse sem destino, apenas pelo prazer da paisagem interna?

Que tenhamos a coragem de sermos, aos olhos do mundo, um pouco mais inúteis. E, aos nossos próprios olhos, finalmente livres, para que possamos fazer um acerto de contas com a nossa vida inteelctual.

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