Há certas frequências que nos atravessam sem pedir licença, uma vibração subterrânea que escapa a qualquer nome que tentemos dar. Foi o que me aconteceu agora há pouco, segundos antes de abrir este caderno e deixar a tinta correr.
Eu estava ali, imersa na luz azul da tela do computador, assistindo a um show de uma voz que eu desconhecia: O algoritmo me ofertou aquele vídeo quase como um segredo, uma garrafa lançada ao mar digital que encontrou logo a minha praia.
E, de repente, o mundo parou.
Não foi o coração saindo pela boca, porque essa urgência é barulhenta e caótica demais, mas foi algo mais sutil, mais hidráulico. Senti como se uma maré subisse dentro do peito, ocupando o quarto todo, uma vertigem doce parecida com aquele instante de silêncio suspenso logo depois que lemos uma frase devastadora em um livro novo e precisamos de tempo para voltar a respirar. A música preencheu as lacunas que eu nem sabia que existiam em mim, tocando uma partitura que parecia ter sido escrita para a minha própria biografia (que convenhamos, combinou perfeitamente com a essência de baunilha pós-banho dos meus cabelos molhados).
Esses arrepios, essa eletricidade estática que percorre a pele, me devolvem a certeza inegociável de estar viva. Lembrar que sentir (em toda a sua complexidade e textura) é um privilégio imenso. É um presente divino, tenho certeza. Deus não está apenas nas grandes catedrais; Ele mora nessa capacidade que temos de nos emocionar com uma melodia estranha em uma terça-feira qualquer.
A mesma quietude reverente me visitou hoje cedo, mas de uma forma tátil, com cheiro de café recém-coado e lençóis desfeitos. Observei meu marido à distância, alheio à minha admiração, enquanto o dia ainda espreguiçava lá fora. A luz pálida da manhã entrava pela fresta da cortina, recortando o perfil dele e desenhando os fios do cabelo comprido, que brilhavam com uma vida própria. Havia uma sombra rústica em seu rosto, a barba por fazer denunciando a passagem do tempo, o que me trouxe uma sensação súbita e aguda de familiaridade e pertencimento. Apenas poucos anos de casada e já percebi as marcas do tempo em nós dois: que alegria!
Sorri, não apenas com os lábios, mas com aquela calmaria interna de quem finalmente reconhece seu lugar no mundo. Fiquei ali, ancorada em seus movimentos trabalhando em silêncio, o som dos dedos no teclado competindo com o canto distante de um pássaro.
Mas foi na pausa que o amor se revelou por inteiro. Ele parou, pensativo, e abriu a gaveta para escolher um par de meias. A indecisão dele entre um par cinza e outro preto, o cenho levemente franzido naquela tarefa tão trivial, me pareceu a coisa mais humana da Terra.
São nesses pequenos intervalos, onde nada grandioso parece acontecer — entre uma música que toca a alma e a escolha de uma meia numa manhã comum —, que a vida acontece inteira.
E eu, espectadora privilegiada desses milagres miúdos, só posso escrever para não esquecer.
