Não pense que eu não quis ir.
Houve noites em que abri o atlas sobre o tapete da sala, percorrendo com a ponta dos dedos o contorno sinuoso de países que nem sei pronunciar. Meu coração também bate no ritmo de fusos horários distantes. Eu também suspiro quando vejo a luz azulada da tela do celular mostrando cafés em Viena ou praias desertas na Tailândia. Existe uma beleza inegável em ser estrangeiro, em se reinventar onde ninguém sabe o seu nome, em deixar que o vento de outros hemisférios despenteie quem costumávamos ser.
Eu admiro a sua partida. De verdade. É preciso uma coragem elétrica, vibrante, para colocar a vida inteira em duas malas de vinte e três quilos e atravessar o portão de embarque sem olhar para trás. Eu imaginei essa cena mil vezes: eu, o aeroporto, o café aguado de despedida, a promessa de liberdade.
Por muito tempo, me perguntei se eu fiquei por covardia.
Acordava no meio da noite, o teto do meu quarto parecendo baixo demais, as paredes se fechando como uma caixa, e pensava: será que sou apenas fraca? Será que minhas raízes são, na verdade, correntes? A dúvida era um gosto metálico na boca e me sentia pequena diante da grandiosidade dos seus relatos, das fotos saturadas de cores novas, enquanto aqui a paleta parecia desbotar no mesmo tom sépia de sempre.
Mas então o dia amanhece. E a realidade, crua e exigente, bate à porta.
Ficar, descobri aos poucos, exige um outro tipo de bravura. Uma bravura que não ganha likes, que não rende histórias exóticas em mesas de bar, mas que sustenta o mundo.
Porque depois que a poeira da partida de vocês baixa, somos nós que varremos o chão.
Passei a entender que bravos mesmo são aqueles que ficam e encaram o que o tempo faz com as coisas que amamos.
É preciso estômago para ver o envelhecimento dos pais dia após dia, notando cada nova ruga, cada esquecimento, sem a proteção da distância que suaviza a decadência. É preciso força para encarar as feridas da família que nunca cicatrizam, aquelas discussões circulares na cozinha, os problemas da comunidade que se repetem como um disco riscado. A falta de recursos da cidade pequena não é poética; é áspera, tem cheiro de ferrugem e exige criatividade para sobreviver.
E, meu Deus, os caixões.
Aqueles que seguramos porque vocês não estavam lá. O peso da madeira maciça, o desequilíbrio do terreno no cemitério, o calor insuportável do terno preto sob o sol do meio-dia. Nós seguramos as alças. Nós ouvimos o som da terra caindo. Nós servimos o café para as visitas constrangidas e limpamos a casa depois que o luto se instala nos cantos dos cômodos.
Quanta coragem é preciso para conhecer o mundo? Muita. Eu sei que sim, e ainda sonho com ele.
Mas hoje, enquanto rego as plantas no quintal — as mesmas samambaias que minha avó plantou —, percebo que a minha geografia é vertical. Eu não me expandi para os lados, cruzando oceanos. Eu cavei. Cavei fundo na terra dura deste lugar.
Respiro o ar familiar, carregado com o perfume do jasmim que floresce teimosamente todo ano, e entendo, finalmente. Há um universo inteiro nas fissuras desta calçada.
E quanta coragem, quanta coragem silenciosa e brutal é preciso para fazer de um único lugar o seu mundo inteiro.
Guardo o passaporte, que nunca carimbei, no fundo da gaveta, pois, afinal, alguém precisa fechar as janelas quando a tempestade vem.
