Percorro com os dedos a superfície das fotos, onde o tempo congelou em cores saturadas, e me dou conta do meu desconhecido: não tenho memória de um mundo onde eu caminhasse sem um par de passos menores ao meu lado.

Desconheço a arquitetura do silêncio absoluto. Minha infância não teve cômodos vazios, pois a casa sempre respirou o ar das nossas estripulias, e o tédio nunca teve permissão para entrar onde a risada era a mobília principal.

Não sei o que é a gravidade de um quarto fechado depois que a luz do corredor se apaga. Meus medos noturnos nunca foram solo fértil para a solidão, porque, no escuro, havia sempre o som de outra respiração, o consolo tátil de saber que o choro, se viesse, seria dividido até ficar leve.

O tempo, esse artesão paciente, espichou as formas, trocou os dentes, mudou as vozes. As “minis pessoas” cresceram para ocupar o mundo, mas a certeza permanece intacta, ancorada no lado esquerdo do peito.

Antes, éramos o equilíbrio de dois pontos: não havia Kaka sem Gika, o reflexo exato, a rima feita. Mas o amor pediu expansão e nos tornamos três. Com a Manu, o dueto virou acorde completo, e nunca mais houve “uma” sem “as outras”.

Hoje, ao olhar para trás, entendo: minhas memórias mais doces não são apenas minhas. São fios de uma mesma trança, nós cegos de afeto e história, eternamente entrelaçadas em vocês.

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