Hoje, girei a chave na fechadura com uma intenção diferente. Não foi apenas para entrar, mas para trancar o mundo lá fora. Deixei a pressa no capacho, junto com os sapatos empoeirados e a lista interminável de pendências que teimam em dizer que não sou o suficiente.
O mundo, com sua gritaria constante, pode esperar.
Aqui dentro, o tempo obedece a outra lógica: Ele desacelera ao encontrar o sorriso de quem amo, e é nesse espelho familiar que a vida, finalmente, reaprende a respirar sem ofegar.
Preparei um café. Não aquele engolido em pé entre uma reunião e outra, mas aquele que perfuma a casa inteira, subindo em espirais de fumaça que dançam com a luz da tarde. Deitei na rede e deixei que o corpo pesasse, confiando que as cordas segurariam não só o meu peso, mas também o meu cansaço. O vento lá fora cantarolava, balançando as folhas e trazendo aquele frescor de quem anuncia que o dia cumpriu seu papel.
No balanço suave, senti o relógio desistir de correr.
Percebi que viver também é a coragem de descansar. É desatar os nós dos ombros e se aconchegar na simplicidade de dividir histórias — aquelas triviais, que não mudam o mundo, mas que salvam o nosso dia. Entre a voz da família e o silêncio confortável do amor, encontrei a paz que nenhuma conquista profissional jamais me deu.
O trabalho é parte da estrada, eu sei: Ele sustenta o teto, mas não sustenta a alma. O que devolve a cor às minhas bochechas é o abraço que me cerca, aquele aperto que reinicia o sistema e me lembra quem eu sou quando não estou sendo produtiva.
Mais tarde, um violão dedilhou notas que pareciam flutuar pela sala. Fizemos um brinde ao luar que espiava pela janela, cúmplice da nossa quietude.
É um segredo tão simples, mas que passamos a vida esquecendo: quem sabe amar, sabe parar.
Se às vezes o freio é preciso, não é por fraqueza, mas sim por estratégia de sobrevivência.
Paro para não secar.
Paro para poder florescer.
E na calma deste dia que se recolhe, descubro a verdade mais bonita de todas: a vida não é sobre o tempo que perdemos, é sobre o tempo que nos permitimos viver.
