Nós somos ensinados a celebrar o grande. O barulho da conquista, o estrondo do fogo de artifício, a vastidão do oceano que nos faz sentir pequenos. Nossos olhos são treinados para o espetáculo. Corremos de uma paisagem para outra, com o celular na mão, tentando capturar a prova de que vimos algo extraordinário.
E, enquanto corremos, pisamos nos lírios.
O lírio do campo não pede atenção. Ele não tem a coragem dramática de um girassol nem o veludo perfumado de uma rosa. Ele é pálido, quase tímido. Sua textura é como a de uma carta antiga. Ele nasce na beira da estrada, entre o concreto e a pressa, e sua beleza é um ato de teimosia silenciosa.
Para vê-lo, você precisa parar. Mais do que isso: você precisa se abaixar.
É por isso que é tão raro. Não o lírio — eles estão por toda parte, oferecendo sua beleza discreta ao vento.
O raro é quem se abaixa.
Passamos a vida cercados por pessoas que nos olham, mas não nos veem. Elas veem o que fazemos, o que temos, o que projetamos. Elas escutam nossas palavras, mas não a música por trás delas. Elas veem a casa, mas não notam a forma como a luz da tarde desenha um retângulo no chão da sala, aquele exato retângulo onde o gato dorme.
Conhecer alguém que percebe os lírios é outra coisa. É um tipo diferente de encontro. É quase um susto.
É a pessoa que, no meio de uma conversa trivial, percebe a microexpressão que você tentou esconder. É quem nota a pausa em sua voz antes de você mudar de assunto. É quem entende que o seu silêncio não é ausência, mas um cômodo cheio de coisas.
É alguém que não tenta “consertar” você. Porque essa pessoa não vê o seu lado quebrado; ela vê o lugar exato onde a sua fragilidade se parece com a textura do lírio. Ela vê a força que foi necessária para você florescer ali, na beira da estrada, apesar de tudo.
Encontrar essa pessoa é encontrar um espelho que reflete não o seu rosto, mas a sua alma. É a sensação de que você pode, finalmente, respirar fundo. Você não precisa mais fazer barulho para provar que existe. Você não precisa ser o oceano.
Encontrar esse olhar é, talvez, a forma mais pura de ser amado. É a teologia do cotidiano posta em prática. É descobrir que o sagrado não estava no topo da montanha, afinal. Estava o tempo todo ali, no chão, esperando que alguém tivesse a delicadeza de parar.
E de se abaixar.
Toda esta reflexão, esta certeza mansa sobre a raridade de quem vê os lírios, não nasceu de mim, pelo menos não sozinha. Ela foi um eco, uma semente que encontrou o solo mais fértil durante a celebração de casamento de nossos amigos muito queridos, Manuela e Victor.
Havia uma luz diferente naquele dia. Enquanto eles diziam o “sim”, não estavam apenas diante de nós; pareciam estar num lugar só deles, rodeados pelos seus, com as vozes e as memórias que os trouxeram até ali, e de uma forma muito tangível, abraçados pelo amor de Cristo. Foi na verdade dos votos deles, na honestidade daquele compromisso, que a beleza do ordinário se revelou como o milagre que realmente é.
Obrigada por mostrarem a todos, mais uma vez, que o Amor venceu e que é tudo verdade!
