A luz da manhã tinha aquela qualidade de aquarela; um azul pálido que se dissolvia em pêssego no horizonte, tão suave que parecia que o dia ainda hesitava em começar. O ar estava pesado de sal. Nossos pés afundavam na areia, primeiro na fofa e seca, que fazia um som macio, quase um suspiro, e depois na areia dura e úmida, deixada pela maré baixa, que era um espelho frio para o céu.
Selena, a fila brasileira de Clara, corria à nossa frente. Corria com aquele esforço bruto e feliz dos cães grandes, as orelhas jogadas para trás, a língua buscando o vento. O som da sua medalhinha de identificação, um tilintar agudo, era a única coisa que quebrava o ritmo baixo e constante das ondas.
Clara estava quieta há algum tempo. Eu conhecia aquele silêncio. Era um silêncio cheio de palavras não ditas, um silêncio que pesava mais do que a maresia.
– Ele estuda tanto, sabe?- ela disse finalmente, e sua voz saiu um pouco rouca, engolida pelo mar.
Ela falava de Tiago, o noivo. O seminário. Os livros grossos de capa escura que eu via empilhados na pequena escrivaninha dele, com margens cheias de anotações em letra miúda.
– Ele diz que é o dever dele- , ela continuou, chutando um monte de algas escuras. – Mas às vezes… às vezes eu acho que ele está estudando no escuro.”
Eu parei. Selena, percebendo a pausa, parou também e olhou para trás, a cabeça inclinada.
– O que você quer dizer?- , perguntei, embora eu soubesse.
– Eu não sei explicar. – Ela abraçou o próprio corpo, embora não estivesse frio. – É como se a teologia fosse uma coisa e… Deus, outra. Ele lê sobre a graça como quem lê um manual de botânica. Ele cataloga, memoriza, disseca. Mas eu não o vejo… respirar.
Respirar.
A palavra ficou suspensa entre nós, perfeita e terrível.
Lembrei-me de algo que meu avô, um homem de poucas palavras e muita fé, me disse uma vez: “Inteligência sem joelho não chega ao coração.”
– Não é uma escolha, Clara – eu disse, mais para mim do que para ela. – Não é a erudição ou a piedade.
Continuamos andando. Meus olhos seguiram uma gaivota que planava, imóvel contra o vento.
Pensei no que Clara temia. O trágico equívoco. O trabalho ministerial que se torna apenas… trabalho. O perigo de conhecer o mapa da Terra Santa, mas esquecer o cheiro da poeira de Nazaré. A apostasia da fé não é só abraçar o prazer do mundo lá fora; é também o estudo feito longe da Presença. É transformar o privilégio do seminário, do estudo sincero e humilde – aquele lugar que deveria ter a salvação como o ar que se respira – em uma simples biblioteca.
– Ele se prepara tanto para o culto- ela murmurou, – que às vezes sinto que ele não participa do culto. Ele está sempre avaliando a liturgia, a música, a resposta. Ele não… descansa ali.
Selena latiu para uma onda que avançou mais do que o esperado, e depois recuou, como se estivesse ofendida com a audácia da água.
O medo de Clara era justo. Era o medo de que Tiago estivesse construindo uma catedral de conhecimento sem espaço para o altar. A tragédia silenciosa de servir com as mãos tão cheias de tarefas que elas não conseguem mais se fechar em oração.
Paramos onde as pedras começavam a surgir, escuras e cobertas de limo. A maré começava a subir.
– Eu só queria que a mensagem dele fosse…- , ela parou, procurando a palavra.
– Pura?- , sugeri. – Clara? Forte?
Ela assentiu, os olhos úmidos.
– Mas as duas coisas precisam combinar, Clara- eu disse, tocando seu braço. A pele dela estava fria do vento. – A mensagem só é forte se as duas coisas se combinam. O estudo dá a estrutura, a clareza. Mas é a oração que dá o fogo. É o estudo na presença de Deus que torna a mensagem pura.
Eu olhei para o mar. A água e a areia. Não é uma escolha entre as duas. Elas se encontram, o tempo todo. A erudição precisa ter a textura da areia molhada; ela precisa ceder sob o peso da Presença. O estudo precisa se ajoelhar.
Selena voltou correndo para nós, feliz e exausta. Ela se sacudiu vigorosamente, nos batizando com centenas de gotículas de água salgada e alegria canina.
Clara riu, um riso surpreso e molhado.
– Vamos – , ela disse, limpando o rosto. – Ele chega hoje à tarde. Acho que vou fazer aquele bolo de milho que ele gosta.
Continuamos a caminhada de volta. O sol agora estava mais alto, e a luz já não era aquarela; era óleo, espesso e dourado, cobrindo a areia. O silêncio que se fez entre nós, dessa vez, não estava cheio de palavras.
Era um abrigo. E, por enquanto, bastava.
