A saudade da infância é uma coisa quase macia, filtrada pelo tempo. É um cheiro de bolo de fubá saindo do forno numa cozinha que talvez nem exista mais. É a lembrança da grama pinicando as pernas, o toque de um tecido específico do vestido da mãe, o gosto de merengue que a avó fazia. É uma nostalgia que, mesmo doendo, já foi catalogada. É uma aquarela que desbotou o suficiente para se tornar bonita, suave nas bordas: Ela acomoda.

A saudade de agora, essa que carregamos nos vinte e poucos anos, não tem bordas suaves: Ela é feita de vidro quebrado.

Acho que é porque as memórias recentes são cruas, não cozidas. Elas não são mitos; são fatos.

Temos os recibos. Temos as fotos em alta definição no celular, onde podemos dar zoom e ver os poros, as rugas finas de um sorriso que não veremos mais daquele jeito. Temos os áudios. Ah, os áudios. Pequenas cápsulas de tempo onde a voz ainda está viva, respirando, com a entonação exata de uma piada interna que só vocês entendiam. Você pode tocar a voz, e a voz te toca de volta.

A saudade da infância é uma saudade do que foi. A saudade adulta é, tantas vezes, uma saudade de quem fomos quando estávamos com o outro. É a perda de uma versão nossa que só existia naquele contexto.

E ninguém, absolutamente ninguém, nos ensina a lidar com a liturgia de escrever “feliz aniversário” para alguém que agora vive em outra cidade, outro país, outra vida.

São dez da noite de uma terça-feira. O apartamento está quieto, exceto pelo zunido baixo e constante da geladeira. Você está descalça, sentindo o frio do piso, e a única luz acesa é a tela do celular, que lança um brilho azulado e frio no seu rosto.

O cursor pisca.

Você escreve: “Parabéns! Tudo de bom.” Apaga. Muito seco.

Escreve: “Oi! Feliz aniversário! Muitas felicidades, saúde, sucesso…” Parece um e-mail de firma.

O que você quer escrever é: “Estou com tanta saudade que meu peito se aperta quando penso em te abraçar.” O que você quer perguntar é: “Você ainda toma café sem açúcar? Você ainda ri daquele jeito quando fica nervoso?”

Mas você não escreve. Porque a distância não é feita só de quilômetros; ela é feita de silêncios acumulados, de piadas que perderam a validade. E qualquer coisa que você diga agora soará como uma tentativa de escavar o que o tempo já tratou de soterrar.

Então você digita: “Espero que seu dia tenha sido lindo! Muitas saudades. Se cuida.” É o máximo de verdade que a educação permite.

E é aí que acontece.

Não é um soluço. É uma implosão. Um nó que se forma sabe-se lá onde, subindo pela garganta e apertando, apertando, até que o ar fica denso demais para entrar. E então, sem pedir permissão, uma lágrima quente escorre. Uma só. Depois outra.

Elas caem na tela do celular, distorcendo as letras, silenciosas e sem alarde. Elas molham a gola da sua blusa de pijama, e você nem tinha percebido que estava com frio.

O choro de saudade da infância é um evento. Ele tem hora marcada: a música triste no rádio, o álbum de fotos aberto no colo.

O choro adulto é um acidente.

Ele não pede licença. Ele te encontra numa manhã ensolarada de quinta-feira, enquanto você escolhe abacates no mercado e, de repente, toca os três primeiros segundos daquela música que vocês ouviam no carro. Ele te pega no cheiro de um amaciante específico que vem da janela de outro apartamento, um cheiro que pertencia a outra casa, a outros lençóis. Ele vem no silêncio do elevador, quando você está cansada demais para pensar, e seu corpo decide sentir por você.

É um choro que não tem plateia. Um choro que você enxuga rápido, com as costas da mão, olhando para os lados para ver se alguém notou.

Porque a vida adulta exige que continuemos. Exige que o abacate seja comprado, que o elevador chegue ao andar, que o “feliz aniversário” seja enviado.

Mas por um instante, ali, com o rosto molhado na luz azul do celular, você entende. A saudade não é algo que você supera. É algo que você aprende a carregar. É um cômodo a mais que se abre dentro de nós, um cômodo que vamos mobiliando, dia após dia, com essas pequenas ausências nítidas.

Publicado por

Assine nossa NewsLetter

Assine gratuitamente e receba os textos em primeira mão!

Continue lendo