Fui a um festival de rock neste fim de semana. (Eu. Logo eu, que coleciono silêncios e meço o tempo pelo cheiro do café.) Mas eu estava lá. Por ele. E, talvez, um pouco por mim, para provar que ainda sei como mergulhar no caos.
Não foi o som que chegou primeiro, foi a vibração: O baixo batia no peito antes de chegar aos ouvidos, uma pressão física que fazia meus ossos tremerem. Eu estava parada num oceano de nucas e braços erguidos.
O ar era denso, cheirava a cerveja morna, terra batida e aquela eletricidade que paira no ar antes da chuva. Ele segurou minha mão. A pele dele estava quente contra a minha, que estava fria. Ele sorria, o rosto iluminado por flashes azuis e vermelhos. Eu sorri de volta, sentindo o som tomar conta de mim, que o observava em silêncio apreciar as notas sendo tocadas.
Registramos o momento. Alguns cliques rápidos, algumas gravações em vídeo e o barulho engolindo nossas risadas.
Na manhã seguinte, o silêncio da casa parecia mais profundo. Meus ouvidos ainda zumbiam. Enquanto ele coava o café, peguei o celular. A luz azulada da tela doía nos olhos cansados.
Passei as fotos.
Lá estava eu. O cabelo grudado na têmpora, os olhos um pouco apertados por conta do sol estralando. Me vi e não me gostei nem um pouco. Aquele desapontamento miúdo, mas que pesa, começou a se instalar.
Murmurei algo. Mais para a xícara fumegante do que para ele. Algo sobre como a luz estava ruim, como eu parecia… errada. O crítico interno, aquela voz que sempre sabe onde dói, começou a sussurrar.
Ele parou, o coador na mão. Virou-se para mim, não com pressa, mas com aquela atenção que desmonta. Ele me conhece. Ele sabe ler as minhas pausas.
“Deixa eu te perguntar uma coisa”, ele disse, a voz ainda rouca do festival. “Quando você vê uma foto sua de… sei lá, de sete anos. Você fica reparando se a meia estava caída? Ou se o dente da frente tinha mesmo caído? Ou se estava magrinha ou com uns quilos a mais?”
Fiquei em silêncio. Pensei na foto da caixa de sapatos. Eu, banguela, abraçando meu cachorro antigo.
“Você não repara nisso”, ele continuou, como se lesse minha mente. “Você só vê a menina. Você só sente a alegria dela.”
Ele se aproximou e sentou ao meu lado, o cheiro de café preenchendo o espaço entre nós.
“Daqui a vinte anos”, ele disse, tocando a tela do celular, parando na foto que eu mais tinha detestado. “Você vai achar essa foto. E eu te prometo: você não vai reparar nesse cabelo grudado, nem o ângulo da luz. Você vai olhar direto nos seus olhos e vai lembrar da vibração no peito. Vai lembrar que a gente estava junto no meio de todo aquele barulho. Você não vai ver a crítica. Você vai lembrar de um momento feliz.”
Eu olhei para a imagem de novo. Para a mulher na tela que era eu. O zumbido no ouvido pareceu diminuir.
Por baixo dessa primeira camada, comecei a ver outra coisa. Vi o brilho elétrico das luzes refletido na minha pupila. Vi a mão dele, que não aparecia no enquadramento, mas que eu sabia estar segurando a minha.
Percebi, então, que a memória é um filtro mais gentil que o presente. E que, talvez, ele estivesse certo. Talvez a alegria não precise ser bonita para ser verdadeira. Ela só precisa ser sentida. E, com sorte, registrada, para que um dia, nosso eu do futuro possa nos lembrar de quem fomos.
