Existe um tipo de silêncio que só a alma reconhece: o da manhã que ainda não se decidiu entre a neblina e o sol. É nesse espaço suspenso que me encontro agora, tentando pinçar as migalhas de luz que tornam um cotidiano, um relicário.

A verdade nua e crua é que escrevo para me escutar, para organizar a bagunça que não está nas coisas, mas nas gavetas da memória e dos pensamentos que dançam sem música alguma.

E minha teoria que é muitas das coisas começam no cheiro. E hoje, ele tem o calor denso do pão de queijo que acabou de sair do forno, na forma de um conforto imediato, uma âncora dourada em meio ao mar da pressa. E enquanto esse vapor preguiçoso se espalha pela cozinha, o sol dos dias de verão espreita pela fresta da cortina. Não o sol que queima, mas o que tinge o chão de um amarelo vívido, um amarelo que vibra e faz as partículas de poeira dançarem no ar – pequenos universos autônomos.

Há sempre uma música tocando. Baixinha, alta, de todas as intensidades, mas constante. É a trilha sonora da respiração, um jazz lento que me veste como uma segunda pele: Ela é o ponto e a contraponto dos livros pela casa, espalhados como sementes, onde cada capa aberta é uma porta entreaberta para outra vida, outra paisagem. Eles jazem sobre a mesa, no chão, empilhados ao lado da cama, formando uma topografia afetiva, uma bagunça organizada que só quem mora aqui entende.

O caos que nos abriga é sempre mais honesto do que a ordem que nos aprisiona.

Com isso, também paro para pensar em como é curioso como a intimidade se mede em gestos simples. O jeito que um par de braços se encaixa perfeitamente no vão do seu pescoço. Os abraços aqui não são apertos, são pausas. São parênteses no meio da frase apressada do dia. Neles, o tempo para e a gente se realinha.

O lar não é um lugar. É a coleção dessas sensações que se acumulam nas células e nos dão a forma.

Me ouço escrever e sinto que cada detalhe, cada cheiro, cada riso até aqui, é uma linha costurando o tecido de quem eu sou. Essa crônica termina aqui, com o eco de uma risada na cozinha e a promessa desse calor.

É nesse ponto, nessa junção de aromas, livros e silêncios, que a sua história pode começar.

O que acontece depois que a risada se silencia, e o cheiro de feijão se assenta no ar?

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