O som que se derrama pelo quintal é o da infância: risadas que sobem finas como fiapos de nuvem, o baque surdo de uma bola na grama, os gritos de uma brincadeira que só eles entendem.
Sentada nos degraus da varanda, com os pés descalços sentindo o frescor do chão, observo os filhos dos meus amigos: Corpos pequenos e ágeis, cheios de uma energia que parece brotar da própria terra. Um pouco mais para o fundo, perto da mangueira, as vozes deles, os meus amigos, se misturam num murmúrio que me serve de melodia de fundo.
E é ali, naquele exato instante, com a luz se deitando preguiçosa sobre as folhas, que uma frase me vem, sem que eu a procure num livro. Ela emerge da memória, convocada pela cena, exata e límpida.
É de C.S. Lewis:
“Minhas horas mais felizes são passadas com três ou quatro velhos amigos, de roupas velhas, fazendo caminhadas juntos e aboletando-nos em pequenos pubs — ou então sentados até altas horas nos aposentos da faculdade de um, falando de bobagens, poesia, teologia, metafísica, consumindo cerveja, chá e cachimbos.”
Um sorriso me escapa, discreto.
Olho para os meus amigos. Ninguém veste roupas de festa. Há uma mancha de grama no joelho de um, o cabelo do outro está preso de qualquer jeito. São as “roupas velhas” de Lewis, a flanela macia da intimidade que dispensa qualquer artifício. Não estamos num pub inglês nem nos aposentos de uma faculdade antiga, mas este quintal, com suas cadeiras desparelhadas e o cheiro de terra molhada, se tornou o cenário da mesma sensação descrita pelo teólogo inglês.
A conversa deles ondula, passa por preocupações com boletos e noites mal dormidas, e de repente mergulha numa lembrança de dez anos atrás, provocando uma gargalhada que faz os ombros de todos sacudirem. É a nossa versão singela de “bobagens, poesia, teologia, metafísica”.
E as crianças… elas são o presente que não sabia que viria no pacote! São o tempo se desdobrando diante de nós, a prova viva de que os laços que criamos um dia, em conversas regadas a chá ou cerveja, ganharam raízes, deram frutos.
Percebo, então, que a felicidade descrita por Lewis não é um retrato estático do passado, mas um sentimento que se adapta e respira conosco. Ela muda de forma, de cenário. Antes, morava em noites insones de confissões angustiadas; hoje, tem o som das corridas dos nossos filhos. A essência, porém, é a mesma: a paz profunda de estar entre pessoas que simplesmente estão, que são.
Pessoas com quem o silêncio é tão nutritivo quanto a palavra.
Uma das crianças corre na minha direção, o rosto suado e exultante, e se joga no meu colo sem cerimônia. O cheiro dela é uma mistura de sol e grama e eu a abraço. O murmúrio dos meus amigos continua ao fundo. A felicidade não grita. Ela tem o peso de um corpo pequeno e confiante nos seus braços.
É o chão firme sob os pés, a certeza de que, não importa o ruído do mundo, sempre haverá um quintal para dar risada até a barriga doer.
