Há uma estranha e delicada música na água que desaba do céu. Começa com uma nota tímida, um tamborilar suave no vidro da janela, quase um pedido de licença para entrar. Depois, ganha corpo, transforma-se numa partitura complexa que lava o mundo lá fora. Pense nisso por um instante, na simplicidade quase absurda do fato: água. Caindo do céu.
Este fim de semana, a chuva me pareceu menos música e mais ruído. Aconteceu depois de um acampamento desfeito às pressas, o chão da barraca transformado num lago gelado que nos acordou antes do sol. Lembro do cheiro agudo de terra e lona molhada, uma mistura de natureza e fracasso. Lembro da sensação do colchão encharcado, pesado como um corpo sem vida, e do frio úmido subindo pela espinha enquanto tentávamos salvar o que restava do nosso pequeno abrigo.
Enquanto desfazíamos um lar às pressas, com os dedos trêmulos e o coração apertado, eu me dei conta. Como pode o mesmo fenômeno ser, para tantos, um convite ao aconchego e, para nós, naquela manhã, um decreto de expulsão?
Para quem a ouve de uma janela, com uma xícara quente entre as mãos e um livro no colo, a chuva é melodia, é a permissão para uma pausa. É o som que embala a casa, que torna o refúgio ainda mais doce, mas para quem está do lado de fora, sem um teto firme ou com um teto que cede, a mesma água não acaricia: ela invade, encharca, desfaz.
A chuva, percebi ali, revela onde estamos, em que lugar do mundo o nosso corpo repousa. Ela é o espelho líquido que reflete a nossa fragilidade ou a nossa segurança. Afinal, a mesma água que nutre a terra e faz a vida brotar foi a que nos deixou expostos, lembrando-nos de como um abrigo é, acima de tudo, uma promessa. E de como dói quando essa promessa se rompe.
Agora, de volta à segurança da minha janela, escuto a chuva outra vez. O som já não é apenas o som. Carrega a memória daquela manhã, do frio e da pressa. E, no entanto, a beleza insiste em permanecer.
A beleza de saber que ela é, ao mesmo tempo, a canção e o silêncio que a sucede.
Necessária, sempre.
E, talvez por isso, tão assustadoramente honesta.
