Todo dia a mesma coisa. A mesma coisa todo dia.

A gente quase consegue sentir o suspiro que vem antes dela, o curvar sutil dos ombros. É a melodia do cansaço, a ladainha da rotina que parece nos engolir, nos transformar em meros repetidores de gestos. O alarme que toca no mesmo minuto, o café com o mesmo gosto, o caminho que os pés já conhecem de cor.

Mas hoje, enquanto a água esquentava para o chá e a primeira luz, uma aquarela pálida de cinza e rosa, se derramava pela janela da cozinha, eu me permiti escutar essa frase de um outro jeito.

E se a repetição não for uma prisão, mas uma sincronia perfeita?

A mesma coisa, todo dia. O mesmo lado da cama que me acolhe, o peso familiar do edredom sobre o corpo e o beijo de bom dia com um abraço. O som da geladeira, um zumbido baixo e constante que me lembra que a casa está viva. A caneca preferida, aquela de cerâmica com uma pequena rachadura perto da alça, que se encaixa na minha mão como se tivesse sido feita para ela. O calor que se espalha pelos dedos antes mesmo do primeiro gole.

Isso não é ausência de novidade. É a costura invisível da constância que une nossos dias.

É na constância do “mesmo” que a gente percebe o “diferente”. É por causa do silêncio habitual das seis da manhã que o canto de um bem-te-vi se torna um acontecimento. É por causa do sabor conhecido do chá de camomila que uma nota de mel, adicionada num impulso, transforma a bebida em uma pequena celebração. É no trajeto de sempre que notamos uma flor que desabrochou durante a noite na rachadura da calçada, o jeito como a luz do sol de outono incide nos prédios, dourando o concreto.

A vida não grita. Ela sussurra nas miudezas. E para ouvi-la, precisamos do silêncio da rotina.

“Todo dia a mesma coisa” pode ser o mapa de um território seguro. O chão firme onde podemos nos desequilibrar, sonhar, desabar e nos reerguer. É o rio que corre no mesmo leito, mas cujas águas nunca são, de fato, as mesmas. Hoje, a água leva um pensamento novo, uma saudade inesperada, uma fagulha de esperança.

A mesma coisa, todo dia. Sim. E que bom. Que bom que o sol insiste em nascer, que o cheiro de café continua sendo um abraço, que existe um lugar para o qual voltar. Que bom que dentro dessa estrutura que se repete, eu posso ser um pouco diferente a cada amanhecer, pois a alegria vem pela manhã.

Hoje, a mesma coisa sou eu, um pouco mais atenta. E isso, no fim, muda tudo.

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