A vida se tece em pausas. Um inspirar fundo antes de mergulhar, um café que esfumaça na janela enquanto a chuva decide se vem. E se tece também em corridas, na urgência miúda de encontrar as chaves, de não perder o ônibus, de responder antes que a tela apague.

A gente vive assim, entre o suspiro e a falta de ar, tentando encontrar uma ordem para o que, na alma, é pura desordem.

As semanas se desfolham no calendário e, em cada folha arrancada, a mesma verdade sussurra: um único dia, com seu peso de luz e sombra, pode ser mais infinito do que os anos que escorrem, velozes, como areia fina por entre os dedos.

Não há como juntar os grãos que já se foram, não há como revisitar o perfume daquela tarde específica.

Mas os dias, ah, os dias se demoram. Pesam nos ombros, se arrastam no tecido do sofá, no pó que dança lento no facho de sol da quatro da tarde.

E dentro de mim, há uma cidade inteira que nunca dorme. Por sua fiação invisível, zunem pensamentos que poderiam acender as luzes de uma rua inteira numa noite de breu. São sonhos que ainda não têm nome, conversas que nunca aconteceram, o eco de uma risada antiga: Uma energia que não se vê, mas que me move, me cansa, me aquece.

E assim, enquanto a vida corre lá fora, aqui dentro tudo se demora. Os pensamentos, principalmente.

Então me pergunto, no silêncio que fica quando o mundo se cala: quando tudo se apagar, serão nossas memórias a última luz a piscar? Um pulso frágil de energia, insistindo em contar quem fomos, muito depois de já não sermos mais nada.

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