Setembro se anuncia no ar, antes mesmo que o calendário autorize. É quando o frio, aquele que nos fazia encolher os ombros e apressar o passo, parece perder a convicção. Em seu lugar, aos poucos, infiltra-se um perfume que é quase uma promessa: um cheiro de terra úmida que desperta, de folhas muito novas, de uma vida que se move em silêncio sob a superfície.

A primavera nunca arromba a porta. Ela prefere a delicadeza de uma visita que chega sem pressa, que primeiro bate de leve nos vidros com um raio de sol mais morno, que colore o céu com um azul menos apressado.

Para mim, essa estação sempre teve o aroma das minhas próprias reviravoltas; um tempo de costurar memórias, onde a vida corre por um caminho inusitado. Talvez por isso eu a sinta como uma pausa generosa entre o inverno que guardamos e o verão que ainda se espreguiça ao longe.

No meu dicionário particular, o mais íntimo, primavera tem a fragrância doce e pegajosa de manga madura escorrendo pelos dedos num dia quente. E tem a acidez perfumada do maracujá, que acalma e agita na mesma medida, como toda grande decisão.

E a cada setembro, quando o ar muda, é como se eu pudesse sentir o gosto daquelas escolhas de novo.

Um sopro de vida, sim, mas um que tem nome, cor e memória.

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