Há uma fratura que se anuncia sem alarde. Começa como um zumbido baixo, uma nota desafinada no fundo da alma, e de repente, tudo se parte. Anabella reconheceu o som. Fazia muito tempo que não o ouvia, e por isso mesmo o susto fez seu corpo inteiro tremer ao volante.
A estrada, um asfalto cinzento e indiferente, se estendia à sua frente. Era ali, naquele casulo de metal e vidro, que ela estava enfim só. Sem o zumbido das notificações, sem o peso dos olhares, sem a obrigação de um sorriso. E o silêncio, em vez de acalmar, abriu espaço. A melancolia, essa velha conhecida, emergiu das profundezas com uma força que ela já não acreditava ser possível. Brotava como uma planta escura e sedenta, e as lágrimas que tomaram seus olhos eram quentes, silenciosas, e não pediam licença.
O mundo lá fora se desmanchava numa aquarela de luzes e vultos. Cada quilômetro era uma imersão mais funda num vale que não era feito de sombras, mas de uma ausência de cor, um lugar onde o ar parecia rarefeito. Era como afundar lentamente, com o carro e tudo. O mundo lá fora, uma vida submersa e distante, e ela ali dentro, sem conseguir encontrar o caminho de volta para a superfície. O medo que a dominava não era apenas da tristeza em si, mas de reconhecer o caminho de volta para aquele lugar submerso. O medo de, desta vez, não ter forças para nadar.
Um cansaço antigo, que não era dos músculos, mas da alma que sustentava o corpo, pesou em suas pálpebras. Tão cansada. A vontade era só fechar os olhos, deixar o motor embalar o fim.
Mas, em meio à visão turva, um fio de pura teimosia, um restante de força que não vinha de si, a fez respirar fundo e o ar entrou rasgando. A mão, trêmula, abandonou o volante por um instante e se esticou, como se atravessasse a água densa daquele desespero, até encontrar o botão do rádio.
Uma batalha se travou no pequeno espaço do carro.
Uma parte de si queria se entregar ao silêncio, se afogar nele.
A outra, a que moveu sua mão, insistia. E a insistência venceu.
Uma melodia familiar preencheu o carro, primeiro como um sussurro, depois como um abraço. Não eram apenas canções; eram pequenas âncoras lançadas em seu mar revolto. E Anabella, com a voz embargada, um fiapo trêmulo, se agarrou a elas. Cantou. Cantou, com uma força que definitivamente não tinha, as verdades que não conseguia dizer, as orações que não tinha forças de fazer. Cada palavra, uma braçada em direção à luz.
A dor não se desfez num passe de mágica. Ela não é assim, ela não vai embora de uma vez. Mas ela se aquietou. Recolheu suas garras, acalmou suas ondas. O coração, exausto de lutar, encontrou um ritmo mais sereno na pulsação da música.
Quando finalmente chegou ao seu destino e o motor silenciou, o silêncio que a recebeu era outro. Um silêncio de chegada. De trégua. Um silêncio que dizia, com uma delicadeza quase maternal, que ela havia, mais uma vez (e embora exausta), sobrevivido à tempestade.
