A faca desliza sobre a tábua, um ritmo manso e constante. O cheiro de alho e cebola se espalha pela cozinha, um perfume que já se tornou a essência dos nossos meios-dias. Há um balé silencioso nos nossos gestos, uma coreografia de duas pessoas que aprenderam a se mover no mesmo espaço, no mesmo compasso, sem precisar de palavras. Um de nós corta, o outro tempera e assim, a vida acontece nesses pequenos movimentos.
Penso em como dois anos podem ser, ao mesmo tempo, um sopro e uma vida inteira. Dentro de mim, ainda mora aquela agitação miúda, uma espécie de borbulhar antigo, uma promessa de tudo o que estamos construindo.
É um calorzinho que me lembra que a jornada está só no começo, mesmo que a rotina já nos vista com a familiaridade de um casaco antigo e confortável.
Lá fora, o sol enfim rasga o céu cinzento da manhã quando feixes de luz entram pela janela da cozinha, fazendo dançar as partículas de poeira num espetáculo silencioso. O alvoroço dos pássaros nas árvores parece se intensificar com a chegada da luz, uma trilha sonora para o nosso almoço que se anuncia.
E então, o tempo se desfaz. Minha mão para no meio do gesto de picar a cebola e tudo congela por um instante. Uma melodia se desenrola pela sala, vinda de uma playlist qualquer, aleatória como só a vida sabe ser. Nossos olhares se encontram por sobre a bancada da cozinha, e um sorriso lento, cúmplice, nasce no seu rosto e se espelha no meu.
É a nossa música. A canção que nos acolheu na cerimônia de casamento.
As mãos dele, que ajeitavam a mesa, encontram as minhas, ainda com cheiro de tempero. A preparação do almoço pode esperar. Ele me puxa para um abraço que chega sem aviso, no meio do caos doméstico, e que tem o único propósito de ser abrigo. O cheiro do seu perfume misturado ao nosso almoço, o tecido macio da sua camisa contra o meu rosto, o som da nossa música se entrelaçando com o canto dos pássaros.
Há suspiros no meio do dia que são como portos seguros. Não são grandes acontecimentos, mas pequenas âncoras que nos lembram onde o coração repousa. São pausas disfarçadas de abraço, de carinho, de um sorriso compartilhado, que chegam exatamente quando as notas mais delicadas da nossa própria canção decidem tocar.
Simples assim.
