A luz da manhã entra tímida pela janela e desenha uma linha de poeira sobre a minha estante. Fico pensando de onde nasce essa nossa sede, essa busca quase desesperada pelo que ainda não foi tocado.

Sei que a gente se cansa de ouvir falar sobre “o ser humano” e suas manias, como se falássemos de uma espécie distante. Mas talvez seja isso mesmo: um jeito de apontar a lente para o outro, para não ter que encarar o próprio rosto no espelho, com suas marcas e sua fadiga.

Meu olhar passeia pela estante, que para mim é uma cidade silenciosa. Sim, uma cidade, povoada com vidas que amaram, sofreram e sonharam, agora compactadas em lombadas coloridas. E me dou conta de que são poucos os livros que revisito. Poucos os caminhos que refaço nessa cidade que um dia chamei de minha. Eles se tornaram paisagem, uma promessa de retorno que quase nunca cumpro.

É que o novo seduz com uma força que desarma.

A promessa de um caderno que pode, enfim, organizar a vida.

Aquele curso online que vai “destravar” algo que nem sabíamos estar preso.

Até o cheiro de uma caneta nova, deslizando macia sobre o papel, parece carregar em si o poder de um recomeço.

Quando foi que começamos a terceirizar nossa força, a procurar em objetos a motivação que deveria brotar de dentro?

Ah, se a gente se bastasse com a poesia que já mora em nós ou com a beleza de um conceito que finalmente se revela, depois de dias debruçados sobre as mesmas folhas amassadas, com cheiro de café velho e de tempo.

É mais fácil, eu sei. Há um prazer imediato em desembrulhar algo, enquanto aprender um idioma novo parece uma escalada infinita. É preguiça, talvez. Ou, numa confissão que a gente só faz para o travesseiro, um medo de perder tempo – essa moeda tão rara, que guardamos para investir em distrações.

Sinto essa estranheza no corpo. Os pés calçados sobre a grama úmida, uma barreira inútil entre a pele e a terra. O cabelo que se rebela contra o pente, mas o coração quieto, quase mudo. É um descompasso.

Nos acostumamos com o ruído de fundo, com a ansiedade servida como trilha sonora de dias que se medem em tarefas concluídas. Uma produtividade que nos consome e nos deixa ocos.

E isso, sim, me entristece. Olho de novo para os meus livros, para as vozes que me esperam. Talvez a maior novidade não esteja lá fora, na próxima vitrine. Talvez ela esteja em aprender a reencontrar o que já somos. O que já está aqui, paciente e um pouco empoeirado, esperando para ser lido outra vez.

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