17:45
Digitando aqui, meio escondida atrás da tela do computador, enquanto o escritório respira suas últimas horas de produtividade. A luz do monitor já cansou meus olhos e lá fora, o céu se tinge de um laranja melancólico nos tons de inverno, o tipo de beleza que a gente só consegue ver através de uma janela fechada.
Minha caixa de entrada ainda pisca com e-mails não lidos e ainda não consegui zerar a caixa de mensagens do meu celular. A planilha na outra tela parece um abismo de células e números. Cada tarefa cumprida hoje parece ter dado à luz duas outras, menores e mais urgentes: É um peso invisível, essa exigência de estar sempre bem, sempre disposta, sempre no controle. Um disfarce que vesti às oito e meia da manhã e que, agora, parece apertar e sufocar.
E é aqui, neste ruído branco de teclados e telefones distantes, que sinto a beirada. Aquele limite fininho entre a força que eu mostro e o cansaço que me desmorona por dentro.
Uma súplica silenciosa sobe, tão íntima que só eu e o cursor piscando nesta nota podemos testemunhar: Não é um pedido claro. É mais um sentimento, uma confissão digitada com a ponta dos dedos: eu não consigo mais. Não assim, não sozinha.
É só um instante. Abaixo a cabeça, como se lesse algo muito importante no celular, e fecho os olhos.
E por um segundo, eu não estou aqui.
O cheiro de ar-condicionado e café velho dá lugar ao de sal e maresia. O zumbido elétrico é substituído pelo som das ondas quebrando, um ritmo eterno e soberano. Meus pés não estão no chão frio do escritório, mas na areia morna, e minha mão toca a superfície áspera e aquecida de uma rocha imensa.
Ele está ali, como sempre esteve na minha memória mais querida. Sólida. Segura. Mais alto do que eu, me convidando a olhar para o horizonte, e não para os meus próprios pés. Ele não me cobra planilhas, não espera respostas. Sua força é silenciosa, uma presença que me diz, sem palavras, que tudo bem não dar conta de tudo. Que tudo bem ser pequena diante da imensidão.
Ali, encostada nele, o peso nos meus ombros vira brisa e o grito preso na garganta se desfaz no vento.
Um colega passa pela porta de minha sala minha mesa e o cheiro do cigarro, agarrado à ele, me puxa de volta. Abro os olhos.
O cursor ainda pisca. A planilha ainda está aberta. O relógio marca 17:31. Nada mudou. Mas em um instante, eu mudei. E não pelo
O peso ainda existe, mas já não me esmaga.
Vou terminar de responder o último e-mail. Vou desligar o computador. E ao sair por aquela porta, sei que não estarei indo embora sozinha.
“Clamo a ti desde a extremidade da terra; meu coração está abatido; leva-me até a rocha que é mais alta do que eu. Pois tu és o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo.” Salmo 61: 2 e 3
