Há livros que lemos com os olhos e há livros que lemos com a pele, com a memória, com um lugar guardado dentro de nós. “Velhos são os outros” pertence a essa segunda categoria.

Folheá-lo foi como empurrar uma porta e me encontrar, de repente, de volta aos corredores de um fórum que um dia conheci: O ar pesado de histórias não contadas, o eco dos passos apressados, o murmúrio constante de vidas que se cruzam e se resolvem – ou não – em salas pequenas e silenciosas (que na maioria das vezes, na verdade são tumultuadas).

Me senti de novo a ouvinte, a aprendiz de humanidade, sentada em uma cadeira simples, enquanto o tempo do lado de fora parecia correr diferente. A beleza do livro mora nesse resgate: na capacidade de nos fazer parar para escutar. Absorver com calma, eu diria.

Em cada página, eu reconhecia o timbre de voz dos meus avós. O cheiro do café coado no fim da tarde, a textura de um álbum de fotografias antigo, o silêncio confortável que se instala depois de uma longa história. As narrativas são um colo, povoadas por relatos que poderiam perfeitamente ter saído da boca deles, e talvez por isso tenham me tocado tão fundo: São histórias que nos lembram que toda ruga tem um nome, toda lentidão tem um motivo e toda saudade tem um endereço.

Houve momentos, é verdade, em que a melodia do livro pareceu tropeçar.

Em alguns contos, a voz da autora se fez presente de um jeito que me soou mais como um manifesto do que como um sussurro ao pé do ouvido. Era como se, no meio de uma conversa íntima, alguém levantasse um cartaz, ruído esse me afastava um pouco do calor da lareira que o livro tão bem acendia, quebrando a neutralidade delicada que tornava os outros relatos tão crus e verdadeiros.

Mas, apesar dos posicionamentos pessoais divergentes que tenho com a autora, ainda assim, o que permaneceu foi o aconchego e uma reflexão que pousou delicadamente dentro de mim.

Me lembrei de um episódio da minha infância em que, voltando de um rodízio de pizzas com meus familiares, me desatei a chorar no carro do meu pai. O motivo? Meus avós estavam ficando velhos e eu pude notar que o tempo estava sendo vincado na pele daqueles que eu amava.

A juventude tem essa mania de olhar a velhice como quem olha uma paisagem distante através de uma janela embaçada: é algo que acontece com os outros, num tempo que não é o nosso. É como se esse livro limpasse o vidro, nos convidando a pensar que essa paisagem, um dia, será caminhada por nós.

“Velhos são os outros” é, no fim das contas, um livro sobre tempo e afeto. Um lembrete gentil de que as melhores histórias são contadas sem pressa, e que envelhecer talvez seja a arte de se tornar, finalmente, a história que a gente tem para contar.

E isso, por si só, já é um presente imenso.

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