Meus olhos marejaram, não de tristeza, mas de uma alegria quase vertiginosa, ao reconhecer naquele borrão de pixels o exato sentimento que hoje me faz sentir em casa dentro do meu próprio peito. Em uma caixa esquecida, encontrei uma gravação dos meus pais, ainda jovens e imersos naquele amor iniciático e luminoso, capturados para sempre na mesma idade que agora habita os meus ombros.

E o mais incrível é que fui presenteada com a mesma dádiva: estou aqui, agora, vivendo um amor que transborda e a mesma certeza serena.

Uma onda de ternura me invadiu ao lembrar da alegria que foi crescer sob o teto deles, testemunhando essa unidade que formavam, um time coeso contra as intempéries do mundo.

Não quero pintar um quadro de perfeição, pois sei que as dificuldades existiam e as nuvens escuras passavam, mas a memória que ficou, a que de fato importa, é a da gargalhada fácil que ecoava pelos corredores e do riso que servia de tempero para qualquer refeição.

É este o privilégio, que desejo com todas as minhas forças legar aos filhos que um dia talvez eu tenha: que eles me vejam compartilhar a vida com alguém, não como um conto de fadas, mas como uma escolha real e diária, na alegria que ensina e na tristeza que fortalece, na saúde que nos permite dançar e na doença que nos ensina a cuidar, até que o fim do tempo nos encontre.

Sim, revi o vídeo com um sorriso que se recusava a deixar meus lábios, sentindo uma gratidão imensa por aqueles dois jovens que, juntos, disseram sim à família que estavam apenas começando a desenhar.

Eu fui a testemunha ocular dessa decisão de ficar, que se manifestava nos abraços inesperados no meio da cozinha e nas cócegas que a deixava sem ar. Lembrei das nossas guerras de travesseiro que terminavam em plumas flutuando no ar como um tipo de neve de verão, e dos acampamentos improvisados na sala, onde as sombras projetadas pela lanterna nas paredes de lençol eram mais fascinantes que qualquer filme. Vieram as manhãs de domingo, todos nós amontoados na mesma cama, o cheiro de pão de queijo invadindo o quarto enquanto os carros de corrida zuniam na televisão, numa tradição que era só nossa.

Revivi as tardes na praia, com as mãos em concha tentando guardar peixinhos prateados que o mar sempre pedia de volta, e as noites de inverno, observando a chuva de granizo chicotear o mundo lá fora, completamente segura e aquecida, aninhada no círculo perfeito que os braços dos dois formavam ao meu redor.

Naquele instante, com a luz do monitor iluminando meu rosto, a verdade se revelou com uma clareza mansa e definitiva.

Até que a morte nos separe é em um piscar de olhos.

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