Com a caneca de esmalte aquecendo a palma da minha mão, encontrei meu lugar de sempre: o degrau de pedra gasto pelo tempo, na fronteira exata entre a casa e o jardim.

A manhã de setembro se espreguiçava, e o ar trazia aquele cheiro de terra que acabou de beber a chuva, um perfume verde e profundo que sempre me pareceu o verdadeiro cheiro do recomeço: É neste silêncio povoado de zumbidos e folhas que me sento para escutar o que o mundo não diz em voz alta.

E foi ali, entre o vapor do chá de camomila e um suspiro, que me inclinei para ouvir a conversa que imaginei florescer entre a rosa e a hortênsia.

Elas moravam perto uma da outra, vizinhas de canteiro.

A roseira, um arbusto de galhos um tanto anárquicos, salpicados de espinhos como segredos defensivos, oferecia ao sol uma única rosa de um tom que hesitava entre o coral e o pêssego. Era uma flor de arquitetura impecável, um centro que se guardava em espiral, cada pétala uma promessa aveludada que se abria com uma lentidão quase dolorosa. Eu a chamei, em meu caderno de pensamentos, de Rosalina.

Ao seu lado, derramando-se sobre a borda de pedras, estava a hortênsia. Não era uma flor, mas um universo de flores: Um buquê plantado na terra, um mosaico de pequenas estrelas de quatro pontas em tons de azul e lilás, que se desbotavam para um branco-esverdeado nas bordas, como uma aquarela tocada pela água. Não tinha um centro, mas múltiplos corações. Era uma comunidade, uma multidão sussurrante. Dei a ela o nome de Celeste.

Foi o vento, uma aragem quase imperceptível que fez dançar uma teia de aranha, que me pareceu levar a primeira palavra. Vinha de Rosalina, e sua voz, em minha mente, tinha o timbre do veludo de suas pétalas.

– Você já reparou, Celeste – começou ela, – na precisão da minha forma? Cada pétala minha tem seu lugar. A primeira, mais externa, serve de escudo. É mais robusta, menos vibrante na cor, como a capa de um livro antigo. As que se seguem se aninham, uma sobre a outra, em uma geometria sagrada. Elas se desdobram a partir de um ponto único, um miolo quase tímido que guarda todo o meu perfume. É um caminho para dentro. Para se chegar à minha essência, é preciso percorrer uma jornada.

Havia uma ponta de orgulho em sua voz imaginada, mas também uma solidão que só eu, a observadora silenciosa, podia sentir. A beleza de Rosalina era solitária. Ela era um evento. As pessoas paravam, apontavam. “Olhe, a rosa floriu.” Um artigo definido, singular.

Celeste, que balançava suavemente como um todo, demorou a responder. Sua voz não era uma, mas muitas, um coro em uníssono, com a textura frágil de papel de seda.

– Eu reparo, Rosalina. Admiro sua clareza. É como uma única nota musical, tocada com perfeição. Em mim… em nós… a beleza é diferente. – Uma de suas pequenas flores tremeu, como se tomasse a palavra pelo grupo. – Eu não tenho um caminho para o centro. Eu sou o centro, em todos os lugares. Cada pequena flor que me compõe é um começo e um fim. Nenhuma de nós, sozinha, atrairia um olhar demorado. Somos frágeis, quase transparentes contra a luz. Mas juntas…

Ela fez uma pausa, e todo o seu corpo-buquê pareceu se expandir com a ideia.

– Juntas, formamos este globo, esta constelação de pequenos azuis. Nossa beleza não está na pétala, mas na conversa entre elas. Não temos um perfume que viaja pelo vento como o seu, que é uma frase inteira. Nosso cheiro é o da terra úmida depois da chuva, o cheiro do ar limpo. É preciso chegar perto, encostar o rosto, para nos sentir. É um convite, não uma declaração!

Anotei em meu caderno: A beleza como declaração e a beleza como convite.

Rosalina pareceu ponderar.

O sol da manhã, mais forte agora, encontrou uma gota de orvalho aninhada em sua concha de pétalas, transformando-a em um diamante líquido.

– Mas essa fragilidade não a assusta? – perguntou Rosalina. – Uma rajada de vento mais forte, uma chuva de granizo, e uma de suas pequenas partes pode se perder para sempre. Eu, com minha estrutura, sinto que posso resistir melhor. Minhas pétalas são densas, cerosas. A água escorre por mim, não me encharca. Há força na minha unidade.

Eu mesma já havia me feito essa pergunta tantas vezes, em tantas madrugadas insones. O que é mais forte? A identidade única, polida e defendida, ou a identidade múltipla, fluida, que se encontra na conexão com os outros? Proteger o próprio coração com a armadura da autossuficiência ou deixá-lo vulnerável, em uma rede de afetos que, embora ampare, também pode se romper?

Celeste balançou novamente, um gesto que parecia ser de uma sabedoria antiga.

– Sim, perdemos partes. Às vezes, uma florzinha seca e cai, e ninguém, além do solo, percebe. Mas veja, a minha força não está em cada parte individual, mas na nossa capacidade de continuar sendo um todo, mesmo com ausências. – suspirou de forma pesada, como quem já havia sentido tudo isso na pele – A beleza se reorganiza. O vazio deixado por uma é preenchido pelo espaço que se cria, pela luz que agora alcança a que estava na sombra. Nós mudamos de cor com o humor da terra. Se o solo está mais ácido, nos tornamos mais azuis. Se está alcalino, nos tingimos de rosa. Não lutamos contra o que nos alimenta, nós nos tornamos parte dele. Sua forma é uma afirmação. A nossa é uma adaptação. Um diálogo.

Um zumbido grave e preguiçoso interrompeu minha transcrição mental. Uma mamangava, grande e felpuda, voava em círculos, indecisa. Era o júri perfeito para aquele debate silencioso. Primeiro, ela pousou na borda de Rosalina. Caminhou com suas perninhas ágeis pela curva aveludada, ignorando a perfeição arquitetônica. Buscou o caminho direto para o pólen, para o coração secreto que a rosa tanto se orgulhava de proteger. Mergulhou sem cerimônia, cobriu-se de ouro e partiu, deixando para trás um rastro de perfume no ar.

Rosalina estremeceu, como se tivesse sido tocada em sua alma.

Depois, a mamangava voou até Celeste. Não pousou em uma única flor. Ela mergulhou no conjunto, seu corpo grande e desajeitado afundando na nuvem de pequenas pétalas. Ela não visitou uma flor, mas dezenas delas, em uma dança caótica e eficiente: Rolou, zumbiu, e cada pequena flor lhe ofereceu o que tinha, sem alarde. Quando levantou voo, carregava o pólen de uma comunidade inteira.

Celeste farfalhou, como se risse.

– Viu? Para a abelha, não importa a forma. Importa o néctar. Ela não questionou sua beleza nem a minha. Ela apenas recebeu o que cada uma de nós tinha a oferecer. Em você, ela encontrou um banquete concentrado. Em nós, encontrou um campo para colher.

Rosalina ficou em silêncio por um longo tempo. O sol já estava alto, e sua cor parecia ainda mais vibrante, quase febril, de modo que a gota de orvalho havia evaporado.

– Talvez – disse ela, e sua voz agora parecia menos uma proclamação e mais um sussurro para si mesma, – talvez o formato de uma pétala seja apenas a caligrafia que a vida usa para escrever a mesma palavra. A minha é uma caligrafia rebuscada, em itálico, com floreios. A sua é uma letra de imprensa, clara e repetida, formando um parágrafo coeso. No fim, ambas dizemos a mesma coisa: floresça.

Ali estava. A epifania.

Não se tratava de qual forma era superior, mais bela ou mais forte. Tratava-se da honestidade de cada existência. A rosa não poderia ser uma hortênsia, com sua beleza coletiva e mutável. Seria uma traição à sua própria natureza espiralada, ao seu perfume que era um poema. E a hortênsia não poderia ser uma rosa. Sua tentativa de criar um centro único a desintegraria, a transformaria em um punhado de flores caídas.

Enquanto eu observava, uma formiga solitária começou a escalar o caule espinhoso de Rosalina, uma jornada árdua e vertical. Ao mesmo tempo, um tatu-bolinha se enroscava na sombra úmida sob as folhas largas de Celeste, encontrando um abrigo no seu vasto porão. Cada uma, a seu modo, criava um mundo.

Fechei meu caderno. O chá na caneca já estava frio. A conversa das flores, real ou imaginada, tinha me preenchido.

Olhei para minhas próprias mãos, para as linhas na minha palma, para a pele que guarda minhas histórias. Quantas vezes eu já não havia me comparado? Quantas vezes olhei para a beleza de outra pessoa – sua clareza, seu propósito, sua forma definida – e senti que a minha era dispersa, um conjunto de pequenas coisas sem um centro aparente?

Talvez eu não seja uma rosa.

Talvez minha beleza não seja um evento singular e ofuscante.

Talvez eu seja mais parecida com a hortênsia: um conjunto de afetos, de memórias, de tentativas, de cores que mudam com o solo das minhas experiências.

Talvez a minha força não esteja em uma pétala única e perfeita, mas na conversa silenciosa entre todas as pequenas partes que me formam.

Levantei-me, deixando a caneca no degrau. Antes de entrar, acariciei uma pétala de Rosalina, sentindo seu veludo firme. Depois, toquei a superfície de Celeste, um amontoado de delicadezas. Elas não responderam, é claro. Continuaram ali, sendo o que eram, sob o mesmo sol, no mesmo jardim.

Mas eu sabia que tinha escutado. E o que elas me disseram, sem dizer, era simples e profundo como o cheiro da terra: não importa o formato da sua pétala.

O que importa é a coragem de desabrochar.

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