Engraçado como a gente muda sem perceber. Um dia, acorda mais cedo que o costume, olha pela janela, e alguma coisa dentro parece ter mudado de lugar, como um móvel que alguém arrastou no meio da noite. O coração, talvez. Ou a forma como se enxerga o próprio caminho.

Cinco anos atrás, se alguém perguntasse onde eu estaria hoje, provavelmente daria uma resposta ensaiada: algo entre “terminando a faculdade” e “tentando me encontrar”. Mas havia tanta coisa fora do meu campo de visão! Como se a estrada estivesse coberta por neblina, e cada passo só revelasse o próximo quando eu tivesse coragem de sair do lugar.

A formatura, por exemplo, parecia um sonho com cheiro de café em sala de aula. O casamento era uma palavra bonita demais, dessas que a gente guarda em cadernos de oração, mas não ousa falar em voz alta. E a fé… bem, a fé estava lá como estivera nos últimos anos. Viva.

Hoje, olho para trás e percebo que os maiores milagres não fizeram barulho. Vieram disfarçados de rotina, delicados e gentis. De portas que se fecharam e, por isso mesmo, me empurraram para outras direções. De noites em que chorei no escuro e fui consolada por um versículo que brotou na memória como quem acende uma vela.

Se eu pudesse dizer algo àquela menina de olhar ansioso, diria: seja gentil. E não pare de sonhar, mesmo quando tudo parecer devagar demais. Porque as grandes coisas também caminham com passos pequenos.

Aos vinte e dois, tudo ainda é começo. Mas um começo um pouco mais maduro. Um recomeço, talvez. Com os joelhos um pouco ralados, o riso mais leve e os olhos mais certos de que não caminhei sozinha.

Aprendi também, nos meros mas muito bem vividos vinte e dois, que fazer graça com os meus – rir de uma bobagem na mesa do café, inventar apelidos que só fazem sentido pra gente, brincar com as rotinas até que elas fiquem menos pesadas — é uma forma sutil de amor. É como bordar leveza no tecido grosso dos dias comuns. Porque, no fim, a vida não precisa ser solene o tempo todo. Às vezes, o que nos ajuda a caminhar é a gargalhada inesperada que nos lembra que estamos vivos — juntos, imperfeitos, mas ainda aqui, pela misericórdia e graça de Deus.

E é com isso que sigo pela Jornada.

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