A luz da manhã entra pela fresta da cortina, não como um convite, mas como uma testemunha silenciosa. Ela desenha um retângulo comprido e pálido no chão de madeira, e dentro dele, partículas de poeira dançam uma coreografia lenta e milenar. Eu assisto, a xícara de café esquecendo seu calor entre minhas mãos. O cheiro de grão torrado se mistura ao cheiro de silêncio, de coisas por fazer.

Há um roteiro que mora em mim, sei disso.

Um roteiro escrito com uma caligrafia que não é minha, mas que reconheço como a mais verdadeira. Nele, as palavras são sempre as certas. A mão se estende no tempo exato. O ombro se oferece antes mesmo que o pranto comece.

É um roteiro de pontes, de portas abertas, de pão repartido.

Nele, eu sou a versão de mim que gostaria de ser.

Aquela que liga para a amiga que anda sumida, que oferece ajuda ao vizinho idoso com as sacolas, que sorri para o estranho na rua com um calor que o alcança de verdade.

Mas, entre o script da alma e o palco do dia, existe um abismo. A intenção brota em mim, clara e pura como uma nascente. Eu a sinto borbulhar, uma vontade genuína de ser rio que corre e nutre. Então, algo acontece. Ou melhor, algo não acontece.

O telefone permanece na mesa. A porta do vizinho se fecha antes que eu mova um músculo. O olhar do estranho cruza o meu e eu o desvio para a vitrine de uma loja qualquer.

A boa ação morre na intenção, um pássaro que se debate contra um vidro invisível e cai, atordoado, no chão do meu peito.

E o que fica é este gosto de barro na boca. A consciência de ser um vaso rachado. Chega em mim uma água límpida, uma ordem mansa que diz “ame”, “sirva”, “cuide”, e eu sinto essa água escorrer pelas frestas antes que possa oferecê-la a alguém.

É a gravidade do meu eu, talvez. Um peso que me puxa para dentro, para a pequena órbita das minhas próprias preocupações, do meu cansaço, do meu receio.

Não é maldade, eu me digo, tentando amaciar a verdade. É só… inércia. É o corpo que pesa mais que o espírito. Mas a justificativa não alivia o eco oco que fica. O eco da palavra não dita, do gesto não feito.

Às vezes, fecho os olhos e consigo ouvir uma melodia submersa, a trilha sonora daquele roteiro original. É uma música incrivelmente simples e bonita. E eu sei a letra. Meu coração sabe. Mas meus lábios parecem esquecidos de como formar as notas. E, em vez da canção, o que sai é o som oco dos meus próprios passos pela casa vazia.

A luz no chão já se moveu, o retângulo agora toca a perna da cadeira. A poeira continua a dançar, indiferente à minha pequena paralisia. E é nessa dança que vejo uma pista. A luz não se recusa a iluminar a poeira. Ela apenas a revela, em toda a sua imperfeição flutuante, e ainda assim, há beleza.

Talvez o amor que me chega (esse que inspira o roteiro e compõe a melodia) não espere que eu seja um vaso perfeito. Talvez Ele já conheça cada uma das minhas rachaduras. Talvez Ele seja como um Jardineiro paciente, que continua regando a planta que tem folhas amareladas, sabendo que, apesar de tudo, há vida ali. Uma vida que anseia por florescer.

O café então está frio. Eu o bebo de um gole só, o gosto amargo e final. Não há uma grande decisão, nenhuma promessa heróica de que hoje serei diferente. A mudança, se vier, não será um trovão, mas um sussurro.

Será o esforço mínimo de segurar a porta do elevador. De responder uma mensagem com mais do que um emoji. De levantar os olhos da tela e ver o rosto de quem passa. Pequenos furos na barragem da minha inércia, para que uma gota, apenas uma, daquela água límpida possa vazar e encontrar a terra sedenta de alguém.

E aqui, neste silêncio que me desnuda, apenas estendo as mãos sobre a mesa, ao lado da xícara vazia.

Abertas. Rachadas.

Prontas para, quem sabe, segurar por um instante o peso de uma única sacola que não seja a minha.

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