O dia começou como tantos outros, mas havia uma quietude no ar que se demorava: Uma espécie de espera sem nome, como quando o céu se curva sobre a cidade em tons opacos e o mundo parece conter a respiração.

Ela ficou um tempo sentada à beira da cama, os pés tocando o chão frio como quem testa a temperatura do próprio recomeço. O cabelo ruivo preso num coque frouxo, com mechas soltas que desenhavam caminhos no ar a cada passo. Sardas delicadas enfeitavam seu rosto como lembranças antigas, e seus olhos castanhos (castanhos de outono, de casca de noz, de café recém-passado) não olhavam para frente: estavam voltados para dentro.

Vestiu sua calça branca de tecido texturizado que havia comprado depois de tanto relutar, afinal, nunca havia usado algo parecido, ou no mínimo exótico aos seus padrões. A camiseta preta, de algodão firme, trazia consigo um tom de incômodo necessário ao momento. E por cima, o moletom igualmente preto, trazendo um pouco de abrigo para uma combinação diferente.

Saiu de casa sem pressa, como quem não queria chegar, mas também não podia mais ficar. O céu, esbranquiçado, parecia coberto por um lençol fino. Havia uma brisa leve, não fria, nem quente, apenas presente: Aquele tipo de vento que não muda o mundo, mas entra por frestas antigas e levanta poeiras esquecidas.

E ela sabia bem o que era isso.

Andava devagar. Os passos não tinham destino, mas tinham ritmo. Um compasso nascido de pensamentos que giravam em círculos em sua mente frenética.

E se eu tivesse dito? E se tivesse ficado? E se nunca mais passar?

Pensava demais, não como quem busca respostas, mas como quem tenta encontrar um lugar dentro da própria mente onde possa sentar e descansar. Mas não havia cadeiras. Só ecos e nenhum lugar para se escorar.

Passou pela padaria. O cheiro de pão quente, misturado ao leve amargor do café, quase a fez parar. Lembrou da avó, da cozinha com as janelas embaçadas, do som do rádio baixo e da manteiga derretendo no pão como ouro morno. Aquilo a atravessou com uma força arrebatadora, de modo que fizesse querer voltar no tempo em um clique.

Não era possível, então continuou.

Parou num ponto de ônibus desativado e sentou-se. Ali, encostada à parede fria, fechou os olhos.

Não era cansaço físico. Era um outro tipo de exaustão, mais funda, o peso de carregar pensamentos que não encontram saída, o nó no peito que não se desfaz com sono, nem com tempo.

E então, chorou.

Não foi um choro de soluço. Foi um pranto quieto, contido, que escorria como a água de uma torneira esquecida: constante, íntima, inevitável. O tipo de choro que não precisa de testemunhas porque ela mesma bastava.

Ali, sozinha no meio de uma terça-feira qualquer ( ou quarta, talvez, ela já não nomeava os dias) entendeu que não podia continuar ali. Não por obrigação, mas porque algo nela começava, ainda que baixinho, a pedir por movimento.

Pela primeira vez em sua vida havia saído de casa sem rumo, e talvez era disso que precisava: Uma pausa na rotina frenética que parecia nunca a tirar do lugar, por mais que implorasse silenciosamente por isso.

Levantou-se e seguiu. Passos tímidos no começo, depois mais firmes. Não sabia para onde ia. Mas pela primeira vez em muito tempo, isso não parecia importar.

Parou numa banca de flores e comprou uma muda de lavanda. O aroma envolveu seu rosto como um afago.

— Vai plantar? — perguntou o florista, um homem de voz suave e olhos que pareciam já ter visto muitas primaveras.

— Ainda não tenho onde. Mas preciso de algo que cresça.

Ele assentiu. Alguns entendem sem precisar de explicação.

Ela continuou.

Ao fim da tarde, encontrou um banco de madeira no parque e se sentou. O céu começava a tingir-se de rosa pálido. Uma menina brincava de bolhas de sabão, correndo atrás delas como se cada uma fosse um milagre possível.

Ela sorriu. Pequeno, mas verdadeiro.

Era isso, percebeu. Viver não era entender tudo. Era continuar. Era abrir o peito mesmo com medo e muitas vezes sem saber direito para onde está indo. Era seguir mesmo com rachaduras.

Ali, com a lavanda repousando no colo, o vento acariciando os cabelos soltos e o mundo recomeçando ao redor, ela respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que o ar entrava.

Amanhã era o nome que ela dava para si mesma.

E agora, finalmente, estava pronta para se chamar.


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