Não tinha pressa. Nunca teve. Aprendera, com o tempo, que as coisas mais urgentes quase nunca são as mais importantes. E por isso caminhava sem atropelar os próprios passos, atenta ao som dos próprios sapatos no asfalto irregular, às fachadas antigas das casas que pareciam lhe acenar com janelas entreabertas. Passou por uma roseira que escapava por entre as grades de ferro e, sem parar, pensou em como certas belezas insistem em florescer, mesmo quando ninguém as espera.

A cidade ainda bocejava. Um senhor varria a calçada de um mercadinho, levantando poeira e memórias. Um cachorro dormia encolhido à sombra de um muro amarelo. Ela seguia, sem desviar os olhos, como quem respeita a paisagem e a vida alheia. Sabia que cada coisa carrega seu próprio cansaço: e isso a tornava mais leve.

No cartório, cumprimentou a atendente com um “bom dia” que parecia carregar todo o gesto de uma mão estendida. Entregou os papéis com firmeza, mas sem rigidez. Enquanto esperava, observava os outros: uma moça com um bebê nos braços, um homem impaciente consultando o relógio a cada minuto, um adolescente apertando os cadarços como quem prende o coração junto.

Pensou, sem querer, que quase ninguém ali parecia se saber amado. E isso doía um pouco, mesmo sem motivo pessoal, porque ela conhecia essa dor. Já andara por ela. Já dormira dentro dela. Mas agora era diferente. Agora, ainda que houvesse dias escuros, não era o amor que se apagava, era só o tempo que mudava o tom do céu.

Quando chamaram seu nome, ela se levantou com um movimento contido, quase cerimonial. Caminhou até o balcão e entregou os documentos com a mesma firmeza gentil com que costuma apertar as mãos de quem confia nela. A moça do cartório, jovem, de rosto pálido e olhos que tentavam parecer seguros, sorriu de maneira automática, como quem sorri por hábito, não por encontro. Mas então, ao passar os olhos pelos papéis, ela parou.

— A senhora é da contabilidade da obra da creche, não é?

Ela confirmou com um leve inclinar de cabeça. Já fazia uns meses que organizava, com paciência, o que parecia irremediavelmente bagunçado. Contas antigas, recibos desaparecidos, orçamentos esquecidos em pastas cheias de poeira e promessas.

— Minha irmã estuda lá. A mais nova. Eu… só queria agradecer. Dizem que foi a senhora que conseguiu destravar aquela verba, né? Pra eles terminarem a cozinha. Agora tem merenda todos os dias.

A mulher sorriu. Não grande, não largo. Mas inteiro. Um sorriso que começava por dentro, como o calor que vem depois do frio, aos poucos.

— Às vezes as coisas dão certo. — respondeu apenas.

A moça assentiu.

O processo seguiu sem pressa. Assinou onde pediram, ouviu as instruções, recolheu os documentos. Mas quando se despediu, a atendente a chamou pelo nome, com gentileza não decorada:

— Obrigada, dona Lívia.

Era raro ouvir o próprio nome assim, dito com cuidado. Soava como uma lembrança do que ela era antes de todos os cargos e tarefas: uma filha. Uma mulher amada. Não por feitos, mas por quem era.

Na saída, parou por um instante na porta de vidro. O sol agora refletia sua silhueta sobre a calçada. Não era uma imagem perfeita. A luz desfazia os contornos, e o vidro embaçado borrava os detalhes. Mas ela se viu. E se reconheceu.

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