Esse conto foi inspirado na música “Love Grows”, de Edison Lighthouse 🙂 Recomendo escutar a canção ao decorrer da leitura – ao final desse post, você consegue dar o play!

Ninguém sabia ao certo de onde ela tinha vindo.

Um dia, simplesmente apareceu: de chapéu desfiado, mochila de retalhos e uma gargalhada que parecia ecoar de um outro mundo. Alguns diziam que era artista de rua. Outros juravam que ela dançava com as estrelas.

Eu? Eu só sabia que desde que Rosemary pisou na cidade, tudo começou a florescer.

Ela andava descalça, mesmo na calçada quente. O cabelo, sempre em desalinho, parecia dançar com o vento antes que qualquer brisa se anunciasse. Usava roupas com estampas improváveis, misturando flores com listras, xadrez com renda, como se não fizesse questão de agradar ninguém. E não fazia mesmo.

Mas o que ninguém via (ou talvez não se importasse em ver) era o que crescia atrás dela.

Literalmente.

Rosemary deixava trilhas.

Nos caminhos por onde passava, surgiam flores nas rachaduras da calçada, trepadeiras nas janelas abandonadas, cheiro de lavanda no corredor do prédio onde morava. Ninguém conseguia explicar. Ninguém tentava, também. Era mais fácil chamá-la de esquisita e seguir adiante.

Mas eu vi. Eu estava lá.

No dia em que ela me segurou pela mão pela primeira vez, o mundo pareceu suspenso. Tudo ao nosso redor ficou mais leve, mais colorido. Um cachorro latiu em tom de canto, uma senhora sorriu sem motivo e as flores da floricultura da esquina se inclinaram todas na nossa direção. Ou talvez tenha sido só impressão. Mas eu juro, a mão dela na minha… era como segurar um pedaço de alegria palpável.

Desde então, não consegui mais ir embora.

Me chamem de tolo. Eles dizem que ela fala meio devagar, que seu olhar está sempre em outro lugar, como se pertencesse a uma história que ninguém conhece. Dizem que vive de vento, que sua vida é uma bagunça, que deve ter um parafuso a menos.

Mas o que sei é isso:
Onde Rosemary vai, o amor cresce.
E ninguém sabe disso melhor do que eu.

Ela me ensinou a dançar sem música, a rir das minhas vergonhas, a plantar ervas na sacada e escrever cartas que nunca precisam ser enviadas. Me ensinou que “mágica” não é o que acontece, é como a gente sente.

A cidade nunca mais foi a mesma. E eu também não.

Agora, sempre que seguramos nossas mãos entrelaçadas, sinto o mundo parar por um instante, como se estivesse nos dando licença pra amar com calma.

Porque o amor cresce onde minha Rosemary vai.
E ninguém sabe disso como eu.

O som agudo da chaleira apitando atravessou o silêncio da manhã como um pássaro alvoroçado, me tirando de meus devaneios sobre a figura que dormia no cômodo ao lado. O apartamento, ainda adormecido em suas sombras azuladas, cheirava a lavanda do difusor na estante e a madeira morna da cozinha. Desliguei o fogo com um gesto automático, o metal quente rangendo levemente sob meus dedos.

— Sonhei com cavalos-marinhos — disse uma voz sonolenta atrás de mim.

Rosemary surgiu no batente da porta como quem chega de um outro mundo. Os cabelos, embaralhados e dourados, estavam presos num coque improvisado, do qual escapavam mechas rebeldes e um girassol torto, que ela provavelmente enfiou ali sem pensar duas vezes. Seus olhos, meio inchados de sono, meio cheios de estrelas , me encontraram como se já estivéssemos no meio de uma conversa antiga.

— No mar? — perguntei, sorrindo.

Ela esfregou os olhos com as costas da mão, depois encostou o quadril na pia como se fosse um porto.

— No teto da minha escola primária — respondeu, com a voz ainda rouca da noite. — Tinha uma escada que levava direto pra um planeta de nuvens… Acho que fui promovida a capitã do barco. Mas era um barco voador. — Disse isso com a naturalidade de quem não vê motivo algum para duvidar de nada que sonha.

Enquanto ela falava, peguei duas canecas e pus saquinhos de chá dentro.

— Hibisco ou camomila?

— Camomila — respondeu sem hesitar. — Hoje é dia de cuidar do jardim da dona Marieta.

Assenti, embora a palavra “jardim” ainda parecesse um exagero generoso. Marieta, a vizinha do 302, tinha um vaso com terra seca e uma paciência ainda mais ressequida: era do tipo que espiava pelo olho mágico, reclamava da água escorrendo do varal dos andares de cima e guardava as sacolas plásticas dobradas por cor.

Mas então, num dia qualquer, Rosemary deixou um vasinho de manjericão na porta dela. Sem assinatura, só um bilhete com letras desenhadas:

“Todo mundo merece começar de novo. Até as plantas.”

Dois dias depois, Marieta bateu à nossa porta com uma xícara de açúcar “emprestado”. Ficou quinze minutos reclamando da umidade do corredor, mas saiu com um vasinho novo de alecrim nas mãos. Desde então, ela nunca mais passou uma semana sem aparecer.

Rose se sentou à mesa, dobrando as pernas como uma criança, e começou a mexer distraidamente na colher de chá. A caneca soltava vapor e cheirava à infância de alguém.

— Sabe o que eu acho? — começou, olhando pela janela entreaberta. — As pessoas não são difíceis. Elas só estão apertadas demais por dentro. A alma delas precisa de espaço.

— E como se dá esse espaço?

Ela fez uma pausa, deixando a colher repousar no pires com um leve tilintar. Sorriu, aquele sorriso largo e despreocupado que parece sempre dois segundos adiantado ao tempo.

— Planta alguma coisa — disse, com os olhos brilhando como se tivesse acabado de descobrir a cura da solidão. — Um tomate, uma amizade, uma esperança. A alma cresce igual raiz: no escuro, mas firme.

Levou a caneca aos lábios como quem sela um pacto secreto. Eu a observei em silêncio. A camisa de botões estava fechada errada, pois pulava um botão no meio, o esmalte dos dedos estava lascado em dois tons diferentes e o tênis parecia ter sobrevivido a um festival e meio. Mas havia nela uma inteireza que ninguém podia tocar.

Rosemary não era o tipo de pessoa que passava pela vida. Era o tipo que a fazia florescer, mesmo nos cantos rachados.

Quando terminou o chá, levantou-se com o ímpeto de quem acabou de receber uma missão. Pegou a cesta com as ferramentas de jardinagem que sempre deixava perto da porta: regador, luvas, uma tesoura velha, pacotinhos com sementes de nomes poéticos.

Virou-se pra mim com um olhar que parecia convite e promessa ao mesmo tempo.

— Vem comigo?

— Pra onde?

Ela deu de ombros, o girassol no cabelo balançando junto.

— Ué, pra onde o amor quiser crescer hoje.

E eu fui.

Porque quando Rosemary segura a minha mão, é como se tudo desacelerasse. Os semáforos piscam mais devagar, os sons ficam mais macios, até os carros parecem andar com menos pressa. O mundo, de repente, lembra que pode ser mágico. Mesmo numa terça-feira comum. Mesmo sem trilha sonora. Mesmo quando esquecemos o guarda-chuva, mas lembramos de levar esperança no bolso.

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A porta do 302 rangeu como um velho que acorda com dor nas costas. Abriu devagar, com um estalo sutil, como se não fosse acostumada a visitas. Do outro lado, dona Marieta mantinha a postura rígida de sempre, o queixo erguido como quem encara o mundo com um pouco de desconfiança e muito costume.

Usava um suéter lilás, daqueles que já virou parte do corpo, com um broche dourado em forma de rosa pendurado perto do ombro. O cabelo estava preso num coque apertado, envolvido por uma redinha branca.

Estranho, como sempre. Mas o estranho também pode ser divertido, não? Embora possamos dar significados diferentes à palavra.

Dava pra ver, atrás dela, a sala mergulhada numa penumbra limpa, aquela limpeza de quem não gosta de bagunça, nem de surpresas.

— Entrem. Mas nada de mexer sem eu mandar — disse, sem dar espaço para gentilezas desnecessárias. — Tem coisa que não se deve tocar à toa.

Passamos por um corredor estreito, com cheiro de madeira antiga e naftalina. Na parede, pequenos quadros bordados com frases religiosas pendiam ligeiramente tortos. Um relógio de pêndulo marcava dez e meia, mas estava parado desde sempre.

A varanda era cercada por vidro fosco, com duas cadeiras de ferro, uma mesinha e quatro vasos de barro: três cheios de terra dura, o quarto com um pé de manjericão forte e cheiroso: folhas verdes brilhando sob a luz que escapava entre as nuvens. Era como se o tempo ali também tivesse parado, mas o manjericão decidisse seguir em frente sozinho.

Rose caminhou até ele sem cerimônia, se abaixando devagar, como quem cumprimenta um velho amigo.

— A senhora cuidou direitinho… — disse, tocando levemente o caule. — Ele respondeu.

Marieta ficou de braços cruzados, perto da porta da varanda, entre as plantas e o tapete com bordado de margaridas, um tanto instigada, como se tentasse resolver um enigma. Afastou uma cortina fina com a mão direita, mas não falou nada por um tempo. Ficou apenas olhando Rose arrancar as folhas secas com delicadeza, como quem descasca lembranças.

— Fiz o que você disse. Um copinho de água antes do sol bater direto. E falei com ele. Todo dia. – Disse, um pouco carrancuda para o meu gosto.

Ela disse isso rápido, como quem se arrepende logo depois. Um rubor leve subiu pelas bochechas. Fingiu não perceber.

Rose pegou o pacotinho de sementes da cesta. Escolheu o alecrim.

— Alecrim é bom. Cheiroso, não exige muito, mas retribui até o pouco. E diz que espanta coisa ruim. Sei lá. — Abriu espaço num dos vasos abandonados, afundando os dedos na terra como quem descobre um segredo.

O som das mãos cavando o solo seco preencheu o ambiente. O barulho discreto de colher batendo em xícara vinha da cozinha ao fundo, onde ninguém estava. A casa parecia respirar com a chegada da planta nova.

— Sabe, dona Marieta… — começou Rosemary, com a voz mais baixa — …tem coisa que parece seca, mas só precisa de um pouco de insistência. De alguém que fique ali, mesmo quando não dá flor logo de cara.

Marieta pigarreou. Ajustou o broche no suéter.

— Por que você perde tempo aqui, menina?

Rosemary não respondeu de imediato. Limpou as mãos num paninho de algodão, guardou as ferramentas na cesta, e então se virou devagar. Os olhos claros pareciam ainda mais abertos naquele momento.

— Porque ninguém é solo infértil o tempo todo. Só precisa de alguém que plante com paciência.

Silêncio.

A velha a encarou. Por um segundo, a rigidez do rosto pareceu trincar. Como uma parede que começa a ceder com o calor. Depois, sem admitir muita coisa, apontou para o aparador ao lado do sofá.

— Tem um sachê de lavanda lá. Pode levar. Pra pôr na gaveta das suas roupas. Já basta esse cheiro de terra molhada.

Rosemary sorriu, um sorriso que nem agradeceu em voz alta. Pegou o sachê como quem recebe um tesouro.

Quando saímos do 302, o corredor pareceu mais claro. Ou talvez fosse só impressão. O girassol no cabelo dela balançava suavemente enquanto descíamos as escadas.

— A senhora tá se abrindo — comentei.

— É. Igual a terra. Só precisa de um pouco de luz.

E naquele instante, enquanto o sol atravessava o vitrô da escada e batia nos degraus de granito, senti que estávamos cultivando alguma coisa que não dava pra ver ainda. Mas estava crescendo.

Devagar. Firme. Bonito.

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