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Estava atrasada. De novo. E não havia ironia mais cruel do que a de começar um novo ciclo exatamente como encerrara o anterior: correndo contra o tempo, tropeçando nos próprios passos e, ainda assim, sorrindo da própria desgraça como quem já se acostumou com o caos.

Mas tudo bem. Havia algo de reconfortante em reconhecer os próprios padrões. E, de certo modo, aquela correria matinal carregava um sabor diferente — talvez o gosto agridoce da expectativa. O novo trabalho não prometia apenas um salário no fim do mês, oferecia também uma espécie de recomeço, ainda que silencioso.

O antigo emprego ficava para trás como uma cicatriz incômoda. Não apenas pelas tarefas repetitivas ou pelos relatórios sem alma, mas principalmente por ele — o chefe de sorrisos dissimulados e elogios que vinham carregados de segundas intenções.

Nunca houve nada concreto, nada que pudesse ser denunciado sem ser desacreditada. Mas havia olhares. Havia comentários sussurrados sobre dietas, academia, roupas. Havia, sobretudo, a certeza de que só ela era tratada assim.

E essa certeza doía. Não pela surpresa, mas pela familiaridade.

Foi numa noite de tédio melancólico, entre goles de vinho e deslizes despretensiosos no celular, que ela encontrou o anúncio. Um link. Um formulário. Uma promessa vaga de algo novo. Sem pensar demais, preencheu tudo. E duas semanas depois, estava ali: no trânsito, atrasada, a caminho de um desconhecido que, por ora, soava como liberdade.

Não sabia exatamente o que iria fazer. Marketing de produtos parecia algo tão distante de sua natureza que até soava como uma piada do universo: Morgana definitivamente era feita de pessoas, de diálogos sentidos, de escuta atenta e intuição aguçada.

Se o mundo se parecesse minimamente com os livros que devorava madrugada adentro, ela teria algum dom. Uma mediunidade sutil. Uma sensibilidade mágica para decifrar as almas ao redor.

E não era exagero — até hoje, nunca errara um palpite sobre alguém.

Ao destrancar o carro azul-marinho recém-adquirido, um modelo antigo dos anos 80 com bancos de couro que exalavam um perfume artificial de melancia, sorriu. Havia algo de nostálgico e reconfortante naquele veículo, como se, de alguma forma, representasse sua própria contradição: uma mistura de modernidade e passado, de fuga e permanência.

O motor roncou preguiçoso e no mesmo instante, o celular vibrou.

— Alô? — disse, encaixando o aparelho entre o ombro e a orelha enquanto manobrava para sair da garagem estreita.

— Pode voltar. Você me abandonou — a voz de Aura surgiu como sempre: espontânea, debochada e familiar — Não aceito que tenha pedido demissão sem mim!

Morgana riu, um riso leve, quase infantil.

— Ei, você sabe que era só uma questão de tempo. Meu prazo aí expirou, Aura. Você sabe como eu sou…

— Sei. Intensa. Impaciente. — recitou a amiga, como quem lê um poema já decorado. — Fazer o quê, né? Mas ó… tirando o fato de que fiquei com a demanda em doooobro — alongou a palavra como se ela pesasse no ar — eu fiquei feliz. Andy era um porre.

Andy, o ex-chefe. Insuportável até na memória.

— Isso você já disse — respondeu Morgana, enquanto tentava atravessar um cruzamento movimentado e buzinava para uma moto que cortara sua frente sem aviso.

— E vou repetir sempre que puder. Era um babaca. Você merecia mais. Merecia sair de lá de cabeça erguida.

— E foi exatamente o que fiz — sorriu com orgulho. Mesmo atrasada, mesmo ansiosa, havia ali um resquício de leveza de quem fez o que precisava ser feito.

— Te liguei só pra desejar um ótimo primeiro dia — disse Aura, com a voz mais suave. Depois fez uma pausa. — Não me diga que está atrasada?

Morgana desviou de um buraco, mas não teve tanto sucesso. O carro tremeu sob o impacto, fazendo-a rosnar.

— Surpresa?

— Ai, mulher… corre! Mas cuidado no trânsito! Te amo, tchau!

Desligou do jeito típico dela: abrupto, sem cerimônia. E, mesmo assim, deixando um rastro de carinho.

— Tchau pra você também, senhorita — murmurou Morgana, mesmo sem ser ouvida.

Enquanto dirigia, pensou no quanto eram diferentes —ela e Aura – e, ao mesmo tempo, o quanto se encaixavam de forma perfeita.

Aura casara com seu primeiro namorado, um amigo de Morgana da época do colégio, e vivia uma vida estável, cheia de rotinas e certezas. Já Morgana… Morgana era a tempestade. Tinha três relacionamentos frustrados no currículo e uma coleção de histórias que fariam qualquer terapeuta suar.

Desde o início, sempre fora assim: uma era o porto, a outra, o mar aberto. Uma ponderava, a outra decidia. Uma costurava, a outra cortava. E talvez fosse justamente por isso que se amavam tanto. Porque, no fundo, sabiam que nem toda tampa precisa ser de panela: algumas são de copo de vinho, de diário escondido, de telefonema no meio do caos.

O prédio onde funcionava a nova empresa ficava no centro velho da cidade, entre cafés antigos e lojinhas de bairro que resistiam ao tempo com uma dignidade quase poética. Morgana estacionou o carro com certo alívio, ajeitou o blazer nos ombros — amassado, claro — e conferiu a si mesma no espelho retrovisor. Havia olheiras discretas, o cabelo mais rebelde que o normal e um brilho nos olhos que não sabia nomear, mas gostava de ver ali.

Respirou fundo antes de sair do carro. Uma brisa morna percorreu a rua, carregando o aroma de pão recém-saído do forno misturado ao cheiro distante de poluição. A cidade, como sempre, era uma soma de contrastes que Morgana amava e odiava ao mesmo tempo.

Subiu as escadas do edifício antigo com passos apressados, tentando lembrar o nome do coordenador com quem havia feito a entrevista. Miguel? Marcelo? Começava com M, ela tinha certeza.

Ao empurrar a porta de vidro do terceiro andar, deparou-se com uma recepção clara, decorada com plantas vivas e quadros coloridos que falavam sobre criatividade e inovação.

Uma mulher de cabelos curtos e olhos atentos a recebeu com um sorriso:

— Morgana, certo?

— Sim! — ajeitou a alça da bolsa no ombro. — Desculpa pelo atraso, o trânsito estava um pouco… desafiador.

— Sem problemas. Seja bem-vinda. Pode me chamar de Lana. Eu cuido da integração de novos colaboradores. Miguel está te esperando na sala de reuniões, pode me acompanhar?

Ah. Miguel. Ela sorriu por dentro. Ponto para sua memória fragmentada.

Enquanto caminhavam pelo corredor, Morgana observava tudo com curiosidade: as salas envidraçadas, as mesas com luminárias criativas, os quadros brancos rabiscados com ideias em azul e verde, os copos térmicos sobre pilhas de livros de branding e comportamento do consumidor.

Era outro mundo.

E era fascinante.

Miguel a recebeu com um aperto de mão firme e uma expressão curiosamente gentil. Tinha cabelos bagunçados, barba rala, vestia jeans e camisa social com as mangas dobradas: Um ar de quem trabalhava demais e dormia de menos. Fez uma careta. Não gostaria de ser algum tipo de escrava corporativa.

— Bem-vinda, Morgana. A gente está animado por ter você aqui.

Ela agradeceu, sentando-se na cadeira de frente para ele com um sorriso discreto. Havia algo em Miguel que a deixava confortável — talvez o fato de que ele a olhava nos olhos, e não para o decote que nem ao menos chegava em seu colo. Ou talvez fosse só o alívio de não estar mais sob a sombra de Andy.

As boas-vindas foram rápidas. Miguel explicou a dinâmica da equipe, apresentou os primeiros projetos e mencionou que ela ficaria próxima de Camila, uma redatora com quem teria muita troca. Falou ainda sobre a liberdade criativa da empresa, sobre horários flexíveis e a importância do equilíbrio.

Morgana ouvia tudo, mas uma parte dela apenas contemplava o cenário. O novo. A página em branco.

Quando saiu da sala, foi conduzida até sua mesa. Havia um notebook já pronto, uma garrafa de vidro com seu nome e um post-it escrito à mão:

“Bem-vinda ao time, Morgana. Você vai arrasar! – Camila :)”

Ela sorriu: Era só um papel amarelo com uma frase simpática, mas era o suficiente para aquecer alguma coisa dentro dela.

Sentou-se. Tocou o teclado com a ponta dos dedos. Respirou fundo.

Ali estava ela. Começando de novo.

Talvez ainda sem saber exatamente o que estava fazendo ali, talvez cheia de dúvidas, inseguranças e presságios silenciosos. Mas também cheia de coragem.

Porque havia algo de profundamente corajoso em se permitir recomeçar.

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