O livro repousava aberto sobre os joelhos dele, mas sua atenção já estava longe das palavras impressas, pois a brisa salgada brincava com as páginas, e o cheiro do mar se entrelaçava ao perfume adormecido de protetor solar no próprio braço. Sentado em uma espreguiçadeira de lona, pés afundados na areia quente, ele fingia ler, mas, na verdade, observava.
Ou melhor: se encantava.
Ali, entre o vai e vem das ondas, estava Mora.
Sua mulher, sua inquietação em forma de gente.
Mora decidira, algumas semanas atrás, que queria aprender a surfar. Sem qualquer cerimônia, comprou uma prancha azul (chamativa, como ela) e começou. Sem pressa, sem técnica, mas com uma obstinação impressionante, como em todos os outros hobbies que tentara.
Era engraçado vê-la assim, tão pequena diante da imensidão do oceano, mas tão inteira, tão dona de si. Ela caía. Incontáveis vezes. Mais do que conseguia contar. Caía com barulho, com espuma, com braços espatifados e pernas em desalinho. Caía e ralava na areia grossa, sem dó. Mas cada queda era seguida por um riso aberto, quase infantil, que cortava o ar salgado e chegava até ele como música.
Ele, por sua vez, permanecia ali, silencioso e guardando em si a beleza de cada tentativa dela enquanto tinha um livro nas mãos, uma leitura que havia escolhido por acaso, mas que agora parecia especialmente simbólica.
Porque, no fundo, ele sabia: estava lendo sobre família enquanto via a mulher que ama feliz no mar, porque o objetivo dela, de verdade, era sentir o mar.
Olhou de canto de olho. Ela estava em pé.
Sim, em pé: A prancha corria sobre uma onda tímida, e ela, com os joelhos ligeiramente flexionados, braços abertos feito pássaro em voo, equilibrava-se de forma temerosa, como se não estivesse acreditando no que conseguira fazer. Os olhos dela o encontraram por um segundo — e naquele segundo, ele juraria que o mundo parou.
Depois, a queda.
Ruidosa, girando na água e engolindo metade do oceano.
Ele riu, fechando o livro. Não precisava mais de palavras naquele momento pois tinha uma história diante dos olhos, uma que conhecia muito bem.
Porque não era só no mar que Mora caía e levantava.
Ela fizera o mesmo quando perdeu o emprego, e disse, de queixo erguido, que aquilo era só o começo de outra coisa. Fizera o mesmo quando perderam o bebê, e mesmo em prantos, o abraçou e disse: “vamos tentar de novo, quando estivermos prontos.” Fizera o mesmo quando as contas não fechavam, e ela insistia em ver beleza até na dificuldade, em um super prato de macarrão com tomates e sal.
Mora não sabia ficar caída.
Ele se levantou, caminhando até a beira do mar onde as ondas tocavam seus pés com delicadeza enquanto Mora vinha vindo, com a prancha ao lado, pingando sal, cabelo grudado na testa, olhos vibrantes.
— Você viu? — perguntou, quase ofegante.
— Vi tudo. Você conseguiu!
— Estou pegando o jeito — disse, com orgulho travesso. — Fiquei em pé por três segundos!
— E foram OS três segundos!
Ela se aproximou, encostando a cabeça molhada em seu peito, envolvendo-a com a toalha e com os braços. Ele a apertou com mais força.
— Eu me apaixono de novo por você toda vez que te vejo levantar — sussurrou.
Ela o olhou: E ali estavam de novo os olhos que ele conhecera anos antes, numa biblioteca de madeira escura, onde ela lia Clarice e ele mergulhava em Rubem Alves.
Sentaram-se lado a lado. A prancha ao lado dela. O livro fechado ao lado dele. O mar, infinito, à frente. E um ao outro — mais próximos do que nunca.
Na contracapa do livro, lia-se: “Família não é onde se nasce. É onde se escolhe ficar, apesar das ondas.”
Ele achou bonita a frase. Mas ali, entre areia, sal e amor, soube que mais bonito ainda era viver aquilo.
