Engraçado era o jeito como o vinho balançava dentro da taça. Parecia que seus sentimentos formavam pequenas ondas, contidas apenas por uma fina camada de vidro: tão delicada quanto seu domínio próprio.
Pensou mais um pouco e, por fim, decidiu prestar atenção na série que havia escolhido. Nada inovador, tampouco fascinante: mais uma história policial sobre crimes e suas resoluções. Nenhuma novidade diante de suas preferências. Existia, sim, um desejo antigo e silencioso de trabalhar na área, mas, com o tempo, entendeu que era mais fácil ser espectadora do que atravessar a porta de entrada para aquele universo.
Suspirou. As coisas, embora parecessem estar bem, estavam novamente de cabeça para baixo. Às vezes, cogitava adotar um cachorro só para contrariar a todos, como se isso fosse algum tipo de libertação ou até mesmo rebeldia intencional. Mas, no fundo, sabia: o que exatamente isso resolveria? Absolutamente nada. Seria apenas mais uma responsabilidade em uma vida que mal permitia espaço para si mesma.
Era verdade.
Tempo para si. Algo raro, quase extinto. Um luxo que precisava ser encaixado na agenda como um compromisso formal. Não sabia ao certo o motivo, mas sempre acabava se colocando por último , mesmo quando todos, inclusive sua psicóloga, diziam o contrário.
Morgana beirava o ridículo.
Fitou o próprio reflexo no espelho do guarda-roupas, ainda deitada, e sacudiu a cabeça, tentando espantar os pensamentos que fervilhavam em sua mente. Precisava buscar a irmã caçula no aeroporto em trinta minutos, e levaria ao menos quinze para se aprontar. Suspirou, vencida, mais uma vez e então levantou.
Sem hesitar, pegou o celular no criado-mudo, abriu a gaveta com uma mão só, digitando uma mensagem rápida: avisou que se atrasaria alguns minutos, e sugeriu que Érica tomasse um café superfaturado enquanto esperava. Que fosse.
Já usava uma camiseta larga, grande o suficiente para abrigar três pessoas. Pegou a primeira peça que encontrou: uma saia dourada. Sim, dourada. Seria aquilo e nada mais. Calçou uma sandália branca com a mesma ausência de critérios, sem se importar muito com o que via de relance nos espelhos da casa enquanto se dirigia à porta.
No caminho até as escadas, apanhou sua bolsa preta, repousada no aparador. Aquela mesma que sempre estava pronta — para tudo. Ainda bem que decidira comprá-la no início do ano, pois mal sabia, naquela época, o quanto ela se tornaria essencial.
Girou a chave na porta com pressa, ajeitando a bolsa no ombro e tentando se lembrar se havia, de fato, colocado o celular dentro dela. Sentia o peso, mas não a vibração, nem o calor costumeiro do aparelho em meio aos objetos familiares.
Fechou a porta atrás de si, já mergulhada na própria dúvida.
— Droga… — murmurou, abrindo o zíper da bolsa ainda enquanto caminhava.
Tateava entre o estojo de maquiagem, um livro dobrado nas pontas, fones embolados, recibos, uma barrinha de cereal esquecida. Nenhum sinal do celular. Parou por um segundo na calçada e afundou a mão com mais firmeza, como se o celular estivesse apenas se escondendo.
Deu um passo em falso.
E então, o impacto.
Seu ombro bateu contra o peito de alguém, alguém que vinha na direção contrária e com a mesma falta de atenção. Sua bolsa quase escorregou do braço, e os papéis soltos dentro dela ameaçaram voar. Ela se desequilibrou por um instante, recuperando-se ao mesmo tempo em que levantava o olhar, já preparada para pedir desculpas apressadas.
Mas as palavras engasgaram na garganta.
O homem à sua frente também havia parado. Tinha os olhos fixos nos dela, com uma expressão surpresa, como se não esperasse que esbarrar em alguém pudesse ser, de repente, tão… significativo. Morgana não sabia se era o susto, a coincidência, ou o tom castanho-claro dos olhos dele sob a luz do fim da tarde, mas algo ali a fez prender a respiração por meio segundo.
— Me desculpa — disseram os dois, quase em uníssono.
Ela sorriu, por puro reflexo. Ele também. Um daqueles sorrisos breves, de quem não sabe bem o que fazer com o constrangimento.
— Eu estava procurando meu celular — explicou Morgana, com um riso leve, voltando a olhar para a bolsa como quem precisava justificar a colisão com provas materiais.
— E eu estava respondendo uma mensagem — ele respondeu, erguendo o aparelho como um troféu culpado.
Ela assentiu com a cabeça, ainda meio zonza, e deu um passo para o lado. Ele fez o mesmo, educadamente, como quem libera o caminho de volta ao mundo real.
— Boa sorte com o celular — ele disse, já se afastando.
— Obrigada… — respondeu, baixinho.
Seguiu em frente, o coração um pouco mais acelerado do que exigia o momento. Logo encontrou o celular, enfiado no bolso da lateral da bolsa, exatamente onde o colocara. Riu sozinha.
Que coisa.
Ainda com o celular em mãos, virou a cabeça discretamente. O homem já dobrava a esquina.
Talvez nunca mais o visse.
Talvez.
Mas algo no jeito como ele a olhara, ainda que por segundos, parecia dizer que aquele não seria o único esbarrão.
