O asfalto se desenrolava em faixas contínuas sob o carro que cortava a manhã ainda pálida. Clara ajeitou a cabeça no apoio do banco e deixou o olhar escapar pela janela, onde campos dourados e árvores esparsas passavam em um ritmo sereno. Sentiu um calor conhecido brotar do peito, um misto de nostalgia e conforto.
— Gosta dessa música? — perguntou o pai, com aquele sorriso aberto que sempre lhe aquecia o coração.
Clara sorriu de volta, ajustando o volume do rádio para que a melodia preenchesse o carro como uma lembrança boa.
— Gosto! Parece trilha sonora pra estrada – respondeu, ajustando o volume.
O pai assentiu, e o silêncio que se formou entre eles era dos bons, desses que não incomodam, só preenchem. Depois de alguns minutos, foi Clara quem falou:
— Sabe, eu sentia falta disso.
— Disso o quê?
— De estar com você, só nós dois, estrada à frente e conversa solta.
Ele olhou de relance para ela, seus olhos castanhos ainda firmes, ainda jovens de alguma maneira que Clara não sabia explicar.
— O tempo voa — ele comentou, com a voz tranquila. — Quando a gente vê, já foi.
Clara apertou os dedos um contra o outro, olhando para os próprios joelhos: Desde que se casara, tinha aprendido a aproveitar as oportunidades de se encontrar com o pai dessa forma, sem pressa. A vida agora se organizava em outros ritmos, compromissos, trabalho e demais responsabilidades da vida adulta. Mesmo quando trocavam mensagens, era diferente. As palavras precisavam caber entre tarefas, não se estendiam como uma estrada longa e livre, como naquele momento.
— Lembra de quando eu era pequena, e você me levava pra ver o mar? — ela perguntou, a voz baixa, como se puxasse um fio muito antigo.
O pai riu, um riso cheio de memória.
— Você tinha medo das ondas. A primeira vez que te coloquei na areia, você chorou feito uma bezerra perdida, agoniada com a areia nos pés.
Clara riu porque era verdade: Tinha as imagens gravadas em algum canto da mente: ela, pequena, agarrada às pernas do pai enquanto a espuma branca lambia a praia. Depois, ele a pegara no colo, balançando levemente, e dissera: “Olha, filha, é só a água querendo brincar.”
— Você me carregou no colo até eu confiar.
— Sempre faria isso — ele disse, sério agora. — Se você precisasse, ainda hoje eu faria.
Clara mordeu o lábio inferior para conter a emoção que subia. O rádio tocava uma música suave, e a estrada parecia entender o momento, se esticando sem pressa.
Fechou os olhos por um instante, deixando a mente voltar para outra lembrança, uma ainda mais antiga. Um sábado qualquer, ela e o pai sentados no quintal, montando uma pipa vermelha. A linha se emaranhando nos dedos desajeitados, a brisa morna da tarde: Ele paciente, ensinando com calma, e ela impaciente, querendo vê-la voar logo. Quando enfim a pipa subiu, clara contra o céu azul, Clara sentiu-se imensa, como se pudesse tocar as nuvens.
— Você me ensinou a fazer uma pipa — ela disse, abrindo os olhos e encarando o pai. — Eu achava que ela ia até o céu de verdade.
Ele sorriu, os olhos marejados de ternura.
— De certo modo, ia mesmo.
Ela engoliu em seco, sentindo as palavras se assentarem dentro dela, como sementes.
Por alguns quilômetros, ficaram em silêncio, cada um perdido nas próprias recordações. Clara pensou no quanto a infância parecia próxima e distante ao mesmo tempo, como um livro que se ama mas já não se folheia com frequência.
O sol já subia mais firme no céu, aquecendo o interior do carro. Clara abriu um pouco a janela, deixando o vento bagunçar seus cabelos. Queria guardar aquele momento em algum lugar seguro, para revisitá-lo quando a saudade apertasse.
— E como é a vida de casada? — o pai perguntou, com um meio sorriso.
Clara riu.
— Boa. Diferente. Ainda estou me acostumando. Às vezes sinto falta… de coisas pequenas. De ouvir sua voz me chamando no sábado de manhã pra ir comprar pão, sabe?
— Entendo — ele disse, olhando para a estrada. — A vida é feita dessas pequenas coisas. Quando a gente percebe, são elas que mais deixam saudade.
Clara virou o rosto para a janela, piscando rápido para afastar as lágrimas que ameaçavam cair. Era verdade. Não eram os grandes eventos que mais pesavam na memória, mas os pequenos gestos diários: o cheiro do café enquanto ele a chamava para o café da manhã, o jeito como não ligava de levá-la de pijama combinando com suas meias e chinelos, as piadas bobas no final do dia e, principalmente, as risadas que enchiam a casa.
O carro começou a se aproximar da cidade destino, os primeiros prédios surgindo no horizonte, ainda tímidos. Clara sentiu uma pontada de tristeza porque queria que a viagem durasse mais. Mas ele tinha seus compromissos, e ela, os seus. Queria mais dessas conversas sem pressa, mais dessas pausas no tempo onde tudo parecia se alinhar.
Respirou fundo. Sabia que não podia prender a vida entre as mãos. Mas podia viver uma que valia a pena de ser vivida.
— Pai — ela disse, olhando para ele com olhos cheios de amor —, obrigada.
— Pelo quê?
— Por tudo. Por sempre estar comigo, mesmo quando eu não sabia que precisava.
Ele apertou sua mão de volta, sem dizer nada. Não precisava.
A estrada terminou de desenhar-se sob suas rodas, levando-os até a nova cidade, até a nova etapa da vida de Clara. Mas ali, naquele carro, no compasso da conversa e das lembranças, ela soube que, independentemente do lugar onde estivesse, seu pai sempre estaria ao seu lado, sempre teria um lugar seguro para onde voltar.
Porque havia coisas que nem o tempo, nem a distância, nem as mudanças da vida conseguiam apagar.
E uma delas era o amor que nascia nas estradas, nos quintais, nas manhãs de sábado — e que, silenciosamente, crescia até tocar o céu.
