Existe algo quase mágico no cheiro de um livro novo, eu sei. A promessa de uma história inédita, o brilho de uma capa recém-lançada, o prazer de abrir as primeiras páginas, juntado-o à estante (também recheada). Mas em meio a tudo isso, me peguei pensando: por que sentimos tanta necessidade de comprar mais livros, mesmo com uma estante cheia de leituras inacabadas?

A resposta, talvez, não esteja nos livros — mas em nós.

Vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde cedo, que possuir é sinônimo de ser. Compramos para sentir que estamos progredindo, e com os livros não é diferente. Cada novo título na estante parece um passo em direção a um “eu ideal”: mais culto, mais preparado, mais interessante.

Mas será que estamos realmente lendo por amor, real interesse… ou acumulando por insegurança ou para alimentar nosso ego?

O acúmulo literário, por mais nobre que pareça, pode ser só uma forma de materialismo intelectual. Afinal, de que serve tanto conteúdo se não damos tempo para ele nos transformar?

Existe também o desejo silencioso de ser visto como alguém “inteligente”, de postar a leitura do momento, estar “por dentro” da pauta da vez, ou até mesmo de ter sempre uma referência na ponta da língua. Não raro, buscamos nos livros não apenas conhecimento, mas aprovação. E pode confiar, na maioria das vezes o melhor é ficar em silêncio, mesmo quando sabemos de algo.

Essa vaidade é sutil e perigosa, afinal, quando o saber se torna ferramenta de validação, ele perde sua essência.

Ler para parecer é como fingir que viveu uma história só porque decorou o enredo.

Ademais, não há dúvidas de que a leitura nos enriquece. Mas e quando ela nos isola? Quantas vezes escolhemos mergulhar em uma narrativa fictícia ou teóricas, ignorando as histórias vivas ao nosso redor? Existe tempo para tudo! Para se perder em um romance e para se encontrar em uma conversa. E às vezes, o que a gente mais precisa não é de um novo livro, mas de um olhar demorado, um café compartilhado, uma tarde de riso solto com quem a gente ama.

Ter muitos livros não é, por si só, um problema. Mas é sempre válido se perguntar: quantos são suficientes?

É fácil transformar coisas boas em ídolos silenciosos — e o conhecimento é um deles. Admiramos tanto a ideia de sermos leitores vorazes que esquecemos de ser leitores da vida. E isso inclui saber pausar, silenciar, conviver.

Nem toda fome é de páginas. Às vezes, é só de presença.

Se você, como eu, já se viu comprando mais livros do que consegue ler, talvez seja hora de refletir: o que estou tentando alimentar com isso?

Que a leitura continue sendo ponte, e não parede. Que ela nos aproxime das pessoas, do mundo e de nós mesmos — não apenas de uma imagem idealizada que gostaríamos de projetar.

Ler é essencial. Mas viver de forma humilde também é.

Com amor,
De uma ex-acumuladora de livros na estante de casa.


Essa reflexão partiu de um conteúdo de Francine Walsh

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