A chuva caía com fúria lá fora, como se quisesse lavar o mundo inteiro. O som das gotas era alto, insistente, preenchendo cada canto da casa. Mas ali, naquela sala aquecida pelo silêncio e pelo aroma suave de café esquecido na caneca, ela permanecia quieta. Os pés descalços tocavam o chão frio, uma lembrança sutil de que a vida pulsa até nos detalhes mais simples.

Sentada no sofá, com as pernas levemente encolhidas, ela observava a dança das gotas na janela e deixava que seus pensamentos voltassem para o culto da noite anterior, um domingo de Páscoa: A lembrança era viva, como se as palavras ainda ecoassem nos seus ouvidos, como se os louvores ainda reverberassem no peito.

Pensou no túmulo vazio. Na pedra que foi retirada não por mãos humanas, mas por uma vontade divina que não podia ser contida. Pensou nas mulheres que foram as primeiras a chegar e no assombro silencioso que deve ter tomado conta delas.

A ausência do corpo de Jesus não era motivo de luto, mas sim o maior grito de vida que a humanidade já conheceu: Aquele túmulo vazio não significava perda, significava vitória.

Esperança.

Essa era a palavra que voltava à sua mente como uma âncora que a mantinha firme em dias de tempestade. A esperança que nasce quando tudo parece acabado. Que floresce onde só havia pedras. Que sorri diante do impossível. A esperança que exala vida.

Era essa esperança que os discípulos carregaram ao vê-lo ressuscitado. A mesma que os fez sair pelo mundo, apesar das ameaças e das dores. A mesma que os alimentava por dentro, como se uma chama nunca se apagasse, mesmo quando tudo ao redor tentava soprar para apagá-la.

E por que seria diferente com ela?

A esperança que acompanhou os discípulos é a mesma que habita dentro dos que creem hoje. A alegria de saber que Ele vive, que venceu a morte, que voltará. Isso é o que a fazia sorrir mesmo quando as circunstâncias gritavam o contrário. Isso é o que a fazia continuar mesmo quando os pés tropeçavam e o peito pesava.

Viver com cheiro de vida. Era isso que ela queria.

Que sua vida não tivesse o aroma do medo, da dúvida, da desesperança. Que seu olhar refletisse a luz da ressurreição. Que suas palavras fossem sementes de paz. Que sua existência fosse como jardim molhado pela chuva — fértil, renovado, cheio de promessa.

A chuva não cessava, mas agora ela não parecia mais tão pesada. Pelo contrário, havia algo lindo naquele som constante, como se cada gota dissesse: “Ainda há vida. Ainda há tempo. Ainda há esperança.”

Ela respirou fundo. Fechou os olhos. Sorriu com suavidade.

Um dia, veria Cristo face a face. Um dia, cada lágrima seria enxugada. Um dia, tudo faria sentido. Até lá, ela viveria com o coração cheio da alegria, assim como os discípulos, com os pés firmes na promessa e a alma inteira perfumada pela certeza da vida que venceu a morte.

Porque Ele vive, ela também viveria: viveria como quem carrega o perfume da esperança.

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