Anita estava animada. Era o dia do seu 23º aniversário — o que significava que celebrava sua 23ª primavera. O número soava leve, fresco, quase poético: ela amava estar na casa dos vinte e poucos. Havia algo de encantador na ideia de acumular primaveras, como se cada uma trouxesse pétalas de lembranças, amadurecimento e alguma dose de esperança, com, claro, um toque de aventura.
Acordou cedo, mesmo sem despertador, e sabia que era como se o corpo soubesse que aquele era um dia especial. Levantou da cama com um sorriso ainda sonolento, caminhou até o espelho, escovou os cabelos com delicadeza e lavou o rosto, sentindo a água fria despertar cada pedacinho seu. Escolheu a roupa como quem escolhe um ritual: shorts jeans, regata branca leve e um chinelo de dedo confortável — o tipo de traje que combinava com liberdade e simplicidade, duas coisas que ela prezava.
Saiu de casa com o passo tranquilo, mas decidido, com o sol ainda tímido acariciando sua pele e a cidade começando a despertar. A padaria da esquina, com seu cheiro inconfundível de pão recém-saído do forno, parecia esperar por ela todos os anos, independente em qual lugar do mundo estivesse: sempre haveria uma padaria.
Ali, pediu seu combo tradicional: um croissant amanteigado, o suco de laranja fresco espremido na hora e uma generosa fatia de cuca de banana com doce de leite. Nada muito elaborado, mas, para ela, era mais do que comida — era memória viva.
A tradição de aniversário seguia firme, intacta.
Era curioso como algumas coisas, mesmo com o tempo passando e o mundo girando tão depressa, permaneciam exatamente como deveriam. Aquela tradição tinha começado ainda na infância, criada por seus pais, que faziam questão de acordá-la com uma bandeja repleta das delícias que ela mais gostava. Mas não era só sobre a comida: era o cheiro da casa, os sorrisos sonolentos, os parabéns sussurrados ainda com voz rouca, o beijo na testa e o cobertor ainda enrolado nos pés. Um carinho que marcava o início do dia com amor, e isso bastava para transformar tudo.
Era ali, naquele instante íntimo, que a mágica acontecia. Não uma mágica de contos de fadas com varinhas e feitiços — mas a magia que acreditava ter inspirado tantos contos de fadas, aquela que preenche o coração de quem se sabe amado. Aquela que aquece, mesmo nas manhãs mais frias. A magia que tantos autores tentaram traduzir em palavras, ela a vivia silenciosamente a cada 13 de abril.
Embora, naquele ano, seus pais não estivessem presentes — haviam feito uma viagem inesperada para conhecer a neta recém-nascida, filha de sua irmã —, Anita não se sentia sozinha. Pelo contrário. Ela se sentia preenchida, como se tudo aquilo que vivera ao longo dos anos estivesse ali com ela, invisível, mas presente. Era como se a tradição fosse um laço invisível que a ligava a eles, mesmo com quilômetros de distância entre os corpos.
Sorriu com o pensamento, com a doçura que ele trazia, e se deu conta de que a memória é mesmo o lugar mais aconchegante do mundo.
De volta para casa, colocou o saquinho de papel sobre o balcão da cozinha. Era o som do papel sendo aberto que anunciava que a celebração íntima começaria – o que rendeu uma dancinha de felicidade.
Enquanto organizava tudo com cuidado, sua gatinha, América — uma mistura de curiosidade felina e afeto incondicional — se aproximou e começou a passar entre suas pernas, pedindo carinho com miados suaves. Anita abaixou-se, fez-lhe um afago demorado e sorriu mais uma vez: havia algo de profundamente aconchegante em ter companhia silenciosa, mas constante.
Abriu todas as janelas da casa. O ar da manhã, que começava a esquentar, entrou. Sentir o vento tocar seu rosto era como se o universo lhe dissesse: “Feliz aniversário”.
Olhou em volta. Tudo estava como deveria estar. Não era uma festa cheia de balões, convidados ou presentes espalhados — mas era sua festa. A festa da permanência, da memória, do cuidado. Tudo aquilo lhe trazia segurança.
Era o familiar se reafirmando em meio às transformações da vida.
E, naquele instante silencioso, entre um gole de suco e um pedaço do croissant crocante, ela teve certeza: não importa onde estivesse no futuro, quantos anos ainda viveria ou quem estaria ao seu lado — sempre haveria um croissant sobre a mesa e uma janela aberta para deixar o vento entrar.
Porque, no fundo, era assim que o amor se manifestava: em gestos repetidos, em tradições mantidas, em silêncios cheios de sentido.
