A tarde se despedia em tons dourados quando Ian deixou o pequeno escritório no centro da cidade. Não olhou para trás ao fechar a porta — o movimento era automático, quase como se o corpo já tivesse decorado a rotina de ir e vir, mesmo quando a mente estava a quilômetros dali. Calçou os tênis pretos, ajeitou a barra da calça jeans gasta que insistia em enroscar no calcanhar, e ajeitou a camiseta preta com um puxão breve.

Era sempre assim: o caminho de volta para casa era também o espaço onde se permitia pensar.

Caminhava em um ritmo constante, nem lento, nem apressado. A cidade se transformava aos poucos, conforme os passos o afastavam do centro e o aproximavam dos campos, das casas com hortas e galinhas, do verde que tanto desejara quando vivia no antigo apartamento — aquele com o rooftop charmoso e o silêncio confortável das noites solitárias. Era um contraste curioso: trocara um canto sossegado na cidade por um canto sossegado no interior, e, ainda assim, sentia-se como se tivesse mudado de mundo.

O vento da tarde lhe trazia o cheiro da terra úmida e o som distante de um trator, algum agricultor trabalhando até mais tarde. O pensamento o puxava para dentro, para o que ocupava sua cabeça desde o início da semana: o problema no trabalho.

Ian havia sido contratado para coordenar um projeto de logística em uma empresa que estava expandindo suas operações para o interior. A promessa era boa, o salário justo, e a possibilidade de trabalhar fora dos grandes centros era o que mais o atraíra.

Mas o projeto estava emperrado.

Problemas com fornecedores, atrasos na entrega de equipamentos, ruídos na comunicação com os gestores da matriz. E agora, o diretor regional havia solicitado um relatório completo, explicando os entraves e sugerindo soluções — tudo para a próxima semana. E hoje era sexta.

Respirou fundo. Não era medo de encarar o desafio, mas sim o peso da responsabilidade. Era saber que, naquele momento, cada decisão sua afetaria não só o seu emprego, mas o sustento da família.

Pensou em Helena, sua esposa. Lembrava do jeito como ela reagiu quando ele disse que queria sair da cidade. “Tem certeza, amor? Lá tem mato, tem pernilongo…” rira, mas seus olhos diziam que ela confiava nele. Tinham passado anos naquela cobertura pequena, confortável, com plantas na varanda e vinhos no fim de semana. Era uma vida boa.

Mas Ian queria mais — ou melhor, queria menos. Menos concreto, menos trânsito, menos artificialidade, menos pessoas vivendo no automático.

E agora estavam ali, numa casa com um jardim que mais parecia ter sido sonhado por algum poeta. Galinhas ciscando entre os canteiros, um cachorro branco chamado Bento que era o xodó da família, e a risada de Helena ecoando entre as árvores.

Ele olhou para o céu. Um bando de andorinhas cruzava o ar em revoada, como se dançassem ao som da brisa. Sorriu. Mesmo com as dúvidas, sentia-se grato à Deus. Não era uma vida perfeita, mas era a vida que escolhera. E isso fazia diferença.

Seguiu andando. Passou pela mercearia de Seu Osório, que acenou com a mão suja de farinha. “Boa tarde, Ian! Como vai o projeto da nova horta?” brincou. Marcos riu, acenando de volta.

A cada passo, recordava como as coisas haviam mudado nos últimos meses. A decisão de sair da empresa anterior, os dias procurando algo novo, a entrevista com o gerente da nova firma — uma conversa honesta sobre o desejo de mudar de vida. “A gente precisa de alguém que entenda o chão de fábrica, mas que também saiba lidar com o mato nos pés,” dissera o gerente, rindo.

Mas agora, diante do impasse do projeto, ele se perguntava se tinha feito a escolha certa. E se falhasse? E se não conseguisse resolver a logística a tempo? E se tivesse que recomeçar de novo?

Pisou em uma poça sem querer. A água respingou no jeans já desbotado. Suspirou. Não podia se deixar afundar em dúvidas. Precisava de um plano.

Pensou em conversar com a equipe técnica. Talvez reunir todos e dividir as etapas, escutar as sugestões. A solução não viria de um único cérebro, mas da colaboração.

Lembrou-se de algo que seu pai dizia: “Cabeça de gente junta é igual fogão de lenha: esquenta mais.

A estrada de terra apareceu à frente, sinal de que estava próximo de casa. O sol já beijava o horizonte quando viu o portão de madeira. Bento veio correndo, pulando em suas pernas, enquanto as galinhas cacarejavam ao fundo, formando um pequeno coral.

Helena apareceu na varanda, enxugando as mãos em um pano de prato e se inclinando para um beijo.

— Como foi seu dia?

Marcos parou, olhou tudo ao redor — o jardim, a mulher, o cachorro, o céu tingido de laranja. Sentiu-se inteiro. Sorriu.

— Foi bom. Difícil. Mas bom. – Respondeu.

Ela se aproximou e o abraçou.

— A janta tá quase pronta. Vai tomar um banho?

Ele assentiu. Mas antes, quis ficar ali por mais um instante. Sentado no degrau da varanda, Bento deitado aos seus pés, o cheiro de comida caseira no ar. Pensou no que diria à equipe no dia seguinte, em como abordaria o relatório. Pensou nas palavras certas, nos caminhos possíveis.

Era hora de se levantar, enfrentar, resolver. Mas hoje, por ora, era hora de viver. E viver também é deixar que a mente respire junto com a terra.

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