É no sol poente, quando todos voltam aos seus lares, que Ana permitia-se suspirar fundo. Fora mais um dia insuportavelmente quente, em que nem mesmo o ventilador de sua sala de trabalho era capaz de oferecer algum refresco. Como analista de uma pequena empresa, seu chefe nem sequer se dava ao luxo de instalar um ar-condicionado decente. Bufou com o pensamento enquanto caminhava pelo calçadão da praia – sim, da praia.
Em comparação às grandes metrópoles, morava perto do trabalho: apenas 15 minutos de caminhada à beira-mar, normalmente o momento em que deixava de lado seus fiéis fones de ouvido brancos (já mais para o bege, depois de tanto uso), para tentar esvaziar a cabeça – o que era necessário após um longo e quente dia na frente do computador.
Na semana anterior, havia se candidatado a uma vaga em outra cidade. Ana sabia que a decisão fora tomada no calor do momento, mas… o que custava tentar? Era só uma candidatura, que poderia virar uma entrevista, e talvez uma possibilidade de mudança. Uma grande mudança. Afinal, estava há cinco anos no mesmo trabalho, trombando com as mesmas pessoas pela manhã – no mercado, na farmácia, na padaria, até mesmo no posto de saúde da cidade.
Tinha se mudado para lá com a esperança de esquecer o passado, fugir de si mesma e dos outros – o que definitivamente não a orgulhava. Nem um pouco, na verdade. Evitava falar muito com os locais sobre si, de onde viera, quem era. Criou uma nova rotina, um novo sotaque sutilmente moldado, uma versão enxuta de si. A Ana dali era mais contida, mais funcional, menos frágil. Era o que mostrava — ou, ao menos, tentava.
Precisava admitir que eram insistentes, sempre com um sorriso no rosto. Se Ana não fosse tão fechada, facilmente construiria uma rede de amigos. Mas ela não queria isso. Pelo menos, não por enquanto. O que buscava, durante todos esses anos em que viveu sua pacata vida, era paz — em meio às curtas respostas de mensagens dos amigos e familiares de sua antiga cidade. Afinal, a vida de ninguém parou quando partiu — no que podemos carinhosamente apelidar de fuga necessária.
As marcas em suas mãos eram a prova de que havia razão para tudo aquilo. Sempre que as olhava, um arrepio percorria seu corpo. As mazelas daquela noite ficariam para sempre na memória da mulher — e esperava, esperançosamente, que não no coração.
Resolveu então descalçar os tênis e sentir o mar, que, com a quebra das ondas, fazia do barulho o silêncio de que precisava. A areia ainda morna massageava seus pés e, por um breve instante, a solidão pareceu acolhedora. Ana fechou os olhos, permitindo que a brisa levasse embora um pouco da tensão acumulada em seus ombros.
Pensou no e-mail que ainda não havia recebido. Nenhuma resposta da empresa. Nenhum “sim”, mas também nenhum “não”. E, dentro disso, existia um tipo curioso de esperança. Porque a espera era também uma possibilidade. E, para alguém que vinha se sentindo parada há tanto tempo, já era um movimento.
Lembrou-se de uma frase que leu certa vez: “às vezes, mudar é só ter coragem de ouvir o que você já sabe.” E ela sabia. Sabia que já não pertencia mais àquela cidadezinha. Sabia que não precisava continuar vivendo num exílio autoimposto.
O céu tingia-se de laranja e rosa, enquanto o sol, paciente, descia. Ana continuava ali, com os pés no mar e a alma quase leve. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu medo do que poderia vir. O futuro, antes um abismo, agora era uma estrada – longa, incerta, mas possível.
Deu meia-volta com passos lentos, os tênis nas mãos, e começou a caminhar de volta para casa.
E assim seguiu seu caminho, pois, afinal, não custava tentar.
