De cabelos dourados presos por um elástico rosa e arrastando uma mochila de rodinhas – que parecia maior que ela mesma –, a pequena abriu os braços com a leveza de quem abraça o próprio instante. Seu sorriso iluminou a tarde cinzenta enquanto se deixava molhar pelos primeiros pingos da chuva, sentindo-os escorrer pela camiseta já úmida. Ah! A pequena abriu os olhos, olhou para o amigo ao lado e viu nele o reflexo de sua alegria genuína. Ele, contagiado por aquela cena simples e mágica, sorriu também.

Era a primeira chuva depois de semanas de um calor abrasador, uma trégua inesperada e bem-vinda. Mas não era só ela que celebrava—por toda a cidade, capuzes eram abaixados, guarda-chuvas esquecidos de propósito, pés descalços pisavam em poças e rostos se voltavam ao céu, recebendo cada gota como um presente.

Eu assistia a tudo isso enquanto caminhava, os olhos absorvendo cada detalhe: as árvores carregadas de flores rosadas contrastando com o céu carregado, o chão envernizado pela água, o aroma fresco da terra molhada impregnando o ar.

Uma poesia viva, escrita pelos sentidos.

E ali, no meio da correria de uma semana sufocante, encontrei um respiro. Sorri, enfim, de verdade. Senti a chuva transformar meus óculos em pequenos mosaicos de gotas, e meus ombros, antes castigados pelo suor do calor, agora se refrescavam sob o toque delicado da água.

Vi beleza.

Como pode a chuva, tão comum e passageira, causar tamanho êxtase? Juro que não havia um único rosto fechado, uma única expressão de impaciência. Todos, sem exceção, pareciam ter se rendido à alegria simples de existir sob o céu aberto.

Talvez, no fundo, a gente só precise disso às vezes: um motivo para parar, respirar e sentir.

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