Ali, sentada no pátio do grêmio, estava ela, perdida em si mesma, vagando entre o passado e o futuro.

Seus pensamentos moviam-se tão rápido que mal sobrava espaço para o presente, e ela nem sequer percebia. Não notava como o sol poente tingia seus cabelos dourados de um brilho quase etéreo, nem como o calor suave dissipava, ainda que por um instante, os temores que a envolviam.

Era apenas uma falta de percepção, pois tinha certeza absoluta de que ninguém mais reparava nela naquele local—tão cheio e, ao mesmo tempo, tão vazio. Queria acreditar, com todas as suas forças, que já não era apenas ela por ela, mas tudo ao seu redor insistia em apontar o contrário. “Tudo” significava os pequenos detalhes que a faziam tremer em meio ao choro, as sutis confirmações de uma solidão que se repetia.

Esse sentimento de conformismo diante do isolamento lhe era familiar. Hoje, penso que seja porque nunca experimentou um único dia sem ele, apesar da aparente companhia ao redor.

Sentia-se como uma loba, contorcendo-se para encontrar novamente sua alcateia, mas perdida entre textos e palavras recém-lidas—seu refúgio silencioso, sua fuga particular da realidade.

Com o passar dos anos, o cenário poderia mudar: em vez do pátio, talvez uma sala de aula, um jardim, uma nova cidade. Mas, invariavelmente, se perdia (ou seria se encontrava?) naqueles conjuntos de letras que formavam palavras, que se uniam em frases, depois parágrafos, depois páginas.

E, no fim, sempre retornava ao mesmo ponto, apesar das mudanças externas. Buscava beleza em meio a sentimentos pouco bonitos, que naquele momento mais se assemelhavam a mãos cabeludas—preferia não dizer isso em voz alta—, mas sabia que, com certo esforço, poderiam se tornar mãos macias, limpas, com as unhas pintadas.

Não que tal pensamento fizesse muito sentido, mas, sejamos sinceros, a maioria dos nossos pensamentos nunca fez. Afinal, acho que a maioria das pessoas tem medo de encarar o que há de feio dentro de si, preferindo escondê-lo sob sorrisos amarelos e expressões cuidadosamente neutralizadas.

Era basicamente isso. No fim, sempre preenchia sua vida com lugares e histórias improváveis, devorando palavras para não devorar a si mesma.

Seus cachos, arrebatados pelo vento, começaram a incomodar sua face, refletindo os últimos raios de sol que banhavam o pátio movimentado—onde nem mesmo uma formiga parecia interessada em sua existência.

Acontece. Faz parte da vida.

E assim, o carrossel nunca para de girar.

Publicado por

Assine nossa NewsLetter

Assine gratuitamente e receba os textos em primeira mão!

Continue lendo